terça-feira, 21 de outubro de 2008

Róuvos...


Onde era? – perguntou-me o garotinho em uma conversa no banco da rua – aposto que nunca foi lá. É um lugar impressionante, sem igual. Os rios, que ficam um pouco distante de nossa visão, porem alcançáveis. Parecem mais com Rubis verdes, sim Rubis. Milhares e milhares deles boiando e correndo sem direção. Não se sabe de onde vem nem pra onde vão os rios que correm lá. E também, é impossível acompanhá-los, você só pode vê-lo sumir no horizonte, tentando imaginar pra onde vão, mas não me importa, o próprio lugar por onde esse rio passa já é impressionante. O céu, não é azul, isso, de onde eu estava, não havia céu, somente as estrelas e outras galáxias, ou melhor dizendo, não há barreiras como nuvens ou o azulado de um dia ensolarado atrapalhando a visão da imensidão sem fim, mas o dia é claro como qualquer outro aqui, ou ate melhor. Lindo! Ouvi dizer que após o rio, é possível alcançar outros mundos, mas sabe como é, muita especulação. O que mais me fascina é o solo, não ri, falo serio. O solo é diferente de qualquer coisa que já vi, é difícil ate de falar. Ele se alimenta das arvores. Todo o seu sustento vem das folhas, troncos, caules, ervas, gramas, e que grama, dourada e brilhante, um sistema que parece loucura aqui, praticamente impossível de se imaginar. Pensei em pegar um pouco para mostrar aos outros, mas não deixaram. Perguntou quem – Isso é uma boa pergunta. Nunca os vi direito mas me pareciam que estavam transitando pra lá e pra cá, causando ate um certo achaque no começo, mas logo me acostumei. Acho ate que falei com um. Ou não falei? Á, deixe voar. Continuando, eles são magníficos. Sabem como cuidar da grama dourada, dos rubis, das espécies de vegetação e todos os outros tipos de coisas que há naquele lugar cujo te falarei depois. Impressionante... não, espere, Magnífico... sim, magnífico! Ótimo lugar para conviver a não ser pelas Róuvos. Não precisa perguntar, sei que não faz idéia do que são. Eu também não sabia, mas um deles, daqueles que caminham o tempo todo mas não da pra vê, me ajudou. Acho que foi ai que falei com eles, sabia que tinha falado! Acho que aqui Róuvos poderiam ser chamadas de tempestades, mas não uma qualquer. Imagine furacões fortes junto com chuvas de pedra e um assovio do vento ensurdecedor, imaginou? Róuvos são piores. Quando chegam, conseguem esconder a imensidão alem das estrelas. As arvores balançam com uma fúria humana, procurando ao seu redor alguém para agredir, suas folhas não voam como aqui, se pregam mais forte ainda aos galhos, parecendo ate gostar do gosto do ódio. Pena, perguntei de onde viam as Róuvos, eles me responderam que eles saem do começo do rio e vão para alem dele. O que muito me impressionou naquele tempo que estive lá, pois como sabem que os Róuvos vão para alem do rio se nunca o acompanharam? O intrigante do momento, enquanto os Róuvos demonstravam sua força ali com seus ventos, assovios, trovoes e águas fortes que não faço idéia da onde saiam, é que enquanto observava seu furor, olhava o bailar das arvores ou o chacoalhar daquele rio de Rubis, foi crescendo em min um desejo, perdoe-me ate, mas era um desejo assassino, eu queria ajudar os Róuvos. Me pareciam fazer mais que o certo, me pareciam extremamente no direito de acabar com todo aquele amor que aspirava naquele lugar. Olhava fascinado para os trovoes. Os clarões ofuscavam os meus olhos. O vento sacudia meu cabelo quase arrancando-o fora. Era estupendo ver toda aquela devastação. Perdido nesse espetáculo, os Róuvos conseguiram tirar do meu interior um egoísmo, uma fúria, uma dor insaciável pela miséria que não consegui segurar um brado estridente. Gritava sem ser ouvido. Sentia agora os Róuvos dentro de min. Meus braços se esticavam e pude quase tocar os Róuvos na ponta dos meus dedos, meu coração estava sendo arrebatado enquanto fechava meus olhos em meio à devastação. A liberdade era evidente. De repente, tudo pára, o rio continua a correr pro alem, as estrelas já podiam ser vistas novamente, as árvores, gramas e ate os que caminhavam já podiam ser sentidos ao meu redor. Senti-me humilhado. Uma humilhação curiosa, pois não fui repreendido, não me viam, penso eu, não me calaram mas mesmo assim me senti humilhado. Não sei ainda o porquê mas me parece que era coisa que Róuvos faziam com todos os forasteiros daquela terra, forasteiros esses que nunca vi mas que me pareciam ter passado por lá. Liberdade... humilhação. Nada de filosófico, simples apenas, liberdade... humilhação.
O que aconteceu depois? – Calma meu garoto, você vai saber. Depois do acontecido, dei uma volta por aquele paraíso e sentei a beira do rio, olhando a maravilhosa cor e o esplendoroso perfume da água, sim, um perfume mais atraente que mirra. Pensei, acho que horas, sobre tudo ali, mas então, fui interrompido por uma imagem ruiva e brilhante que ponteava no horizonte do rio. Haa... se há algo que me lembro bem, é daquele momento. Não podia á ver direito, mas sua beleza era tamanha que se fazia sentir de longe. Lembro-me dos ruivos cabelos que me pareciam lisos e cacheados, e se não me engano, o que duvido muito, quando aquele fragmento de estrela virou-se para correr junto com o rio pro alem, deu pra ver um brilho mel em seus olhos, mel claro e estrelado. Você é novo, mas quando crescer saberá, quando a paixão bate, as pontas dos dedos gelam. E o intrigante é que gelam enquanto o corpo todo se esquenta e o mais estranho ainda é que onde eu estava, lá na beira do rio, meus dedos gelaram tanto que quando dei-me por min tive que chacoalhá-los pois nevava da palma da minha mão. Antes que pergunte, sim, acabara de me apaixonar. Levantei num pulo já com a idéia fixa de que correria ate ela. De súbito não senti mais eles andando ao meu redor, pareciam agora me observar, talvez não acreditando que me atreveria a tanto. Era estranho, pois mesmo não os vendo, podia sentir suas feições, seus gestos, sentimentos e parecia que não queriam me deixar ir. Observei por um tempo o nada ao meu redor, despedi-me dos nadas ao meu redor. Agradeci e fui ao horizonte, junto com os rubis.
Não sei o que aconteceu. Quando vi já estava aqui, neste mundo. Não encontrei a bela moça ruiva, não vi o fim do rio nem pra onde os Róuvos iam, nem ao menos sei de onde vim e pra onde vou. Sei que estou aqui, ao lado de um garoto, contando uma historia que provavelmente ira morrer comigo como uma lenda ou mito. Nem adianta tentar consolar-me meu pequeno. Neste mundo onde nos encontramos o que conta é a realidade, um conto como esse seria só mais um em milhares de outros. Sinceramente, as vezes penso que os Róuvos estão aqui também, só que mais camuflados do que naquele lugar. Talvez quando andei, cheguei aonde os Róuvos chegam. Penso eu que esse nosso mundo tão “real” é composto por criaturinhas levadas e manipuladas por Róuvos, que a despertaram daquele paraíso, e as trouxeram para cá, para o mundo dos Róuvos. Mundo das calamidades, do ódio, da dor e da falsa liberdade.

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