quarta-feira, 27 de abril de 2016

Carta de um fugitivo...


- Sentencio-o a Felicidade eterna – e bateu o martelo.
Assim foi minha condenação, anos de total e plena Felicidade. Apreendido e punido a sofrer pelas mãos da prisão chamada Liberdade. Fui levado ao pior lugar da qual um prisioneiro já ouviu falar, a Vida.
Meus dias eram incansáveis, horas e horas de total plenitude em tudo que se fazia. Era obrigado a ter um ótimo emprego, uma latente conquista em todas as áreas. Tinha fartura de alimentos, festas maravilhosas e tudo que se pode pensar de bom. Às vezes trocavam e me levavam para uma vida simples – a Felicidade esta nas pequenas coisas – diziam.
Vez em quando, as coisas já me abusavam, e torturavam-me para que pudesse procurar algo que despertasse novamente a tal Felicidade para que meus dias não fossem em vão. Esses sim eram as trevas do cárcere. Por dias já fiquei aprisionado solitário ate que encontrasse algo que me tornasse feliz novamente. Comprava algo melhor, trocava elogios, fazia novos amigos, outro emprego sempre cabia bem e ajudava com todo o resto. Não podia se falar nem ver coisas que atraiam a tristeza – não adianta se preocupar, você não pode fazer nada – e assim fazíamos, era uma tarefa árdua.
Por noites as lembranças das pessoas do lado de fora me viam a tona. Não eram obrigadas a nada, apenas viviam como deviam viver. Sem o fardo e julgamento da obrigação de serem plenas e estarem com seus espíritos animados constantemente. Viviam em paz sem a preocupação de serem necessariamente felizes, algumas ate a conquistavam, porem como sempre é de ser, ela partia novamente, mas sempre deixando seu antigo dono em Paz.
Os dias tem sido infinitos, as necessidades aqui impostas não me servem. Não possuo mais animo nem criatividade para saciar as vontades de meu carrasco. Sendo assim, deixo aqui minha despedida. Cavei meu túnel, escuro, sombrio e duro de se rastejar.

Aos que ficarem, aguardo-vos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Bilhete...


Se veres esses versos
Sabes que não falo pra você
Mas aproveito seu fuxico
Pra confessar e aparecer

Nunca largue um Amor
Pois esse difícil é de se encontrar
Mas não se esqueça que Paixão
Essa esta em todo lugar

E não confunda meu amigo
Deixe de ser insaliente
Uma Paixão é um abrigo
Pra um Amor ficar contente

Julgue como quiser fazer
Como disse não escrevi para você ler
Pois de meu Amor eu cuido bem

E das Paixões que aparecer.

Importante...


“Se você não existisse, quem sentiria sua falta?”. O velho espantado olhava intrigado para sua neta.
“Você com certeza querida, ou não me ama mais?”, brincou.
“Não vovô, fora eu, papai, mamãe, e todo mundo lá de casa, o senhor faria falta pra alguém?”
As palavras eram suaves saindo da boca da criança, mas aos ouvidos pesavam naquele homem que já tanto tinha vivido. “Se eu não existisse, quem sentiria minha falta?” pensou, como dar falta de alguém que nunca esteve presente? A pergunta ficava cada vez mais indigesta. Sim é possível, sofreu. O tempo havia parado, o mundo parecia não girar mais. Aquela criança olhando para os pés, sentado ao seu lado encostando sua cabeça um pouco abaixo de seu peito havia feito uma pergunta simples porem de complexa resposta.
Ele fez um resumo rápido de sua vida, e não conseguia imaginar alguém que daria falta de sua presença. Quem choraria por um sorriso que nunca viu, um conselho que nunca pediu, um abraço que jamais sentiu? Ou aquela ideia genial que mudaria os rumos do mundo, da ciência, tecnologia, saúde, universo e tudo mais, a quem pertenceria?
Lembrou dos amigos, momentos, colegas e pessoas que se esbarrava na rua, quais delas precisariam da minha existência para continuar suas vidas? Ele sabia que não se tratava apenas de uma experiência simples daquelas que animam a gente, tratava-se de mudar completamente o universo de alguém.
Para quem sou importante? Quem me importou para dentro de si durante todos esses anos? Pensou rápido em alguns amores, paixões, mas nenhuma tinha sido grandiosamente surpreendente.
Como pude passar a vida inteira sem ter a plena certeza de que havia realmente transformado a vida de alguém ao ponto dessa pessoa não poder viver sem mim? As perguntas só aumentavam, ele já não sabia quem era a criança e quem era o idoso.
“Eu sei quem sentiria minha falta”, sussurrou a pequena.
O velho fez um movimento suave para olhar melhor para a origem de sua decepção, “Então diga meu doce”.
Buzina.
Sua mãe chegara, já era tarde. A criança pulou do sofá para pegar suas tralhas, beijou sem avô e foi em direção a porta.
“Ei, quem sentiria sua falta?” não perdoou o ignorante.

“Não posso dizer – falou em tom de meia revolta -. Se souber, não serei mais importante pra você vovô, não ira me esperar todos os dias sentindo falta de minha resposta e poderia viver sem minha existência tranquilamente.” Virou as costas e se foi.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Branco...


“Cego?!”. Não acreditei no que via. “O senhor pode acompanhar este homem ate a rodoviária?” perguntou o guarda que me encontrou depois de dar uma curta volta à procura de samaritanos para a boa ação. Evidente que não hesitei em ajudar, afinal, eu o conhecia.



 Infelizmente esse não é um texto que vou me preocupar em ser exato ou poético. Franco ou intimista. Não perca seu valioso tempo lendo as linhas abaixo caso tenha plumas para amaciar.
Nos passos que se seguiram ate o ponto final da nossa caminhada, conversamos e revelei o conhecer de nossa cidade. Falei que lembrava dele nas quadras das quais jogávamos e dos pontos conhecidos da cidade. Nunca em quase dez anos havia me direcionado a palavra a ele nas tardes de jogos. Estava lá, sempre presente, sabia seu nome e onde morava. Às vezes no mesmo time, e às vezes rivais. Mas colegas de quadra são colegas de quadra.
Uma cegueira progressiva o acompanhava já fazia um pouco mais de um ano, “vejo tudo branco meu amigo”, me disse meio triste algumas vezes. Não foram lasers nem cirurgias que conseguiram trazer de volta as imagens de mais de trinta anos de vida. Já havia se acostumado ate, percebi pelo gingado da bengala de ferro tateando o escuro à frente. Falou-me da vida, como estava a rotina e as novas tarefas que custavam ser executadas.
“Entregue, seu baú já ta encostando”. Ele me agradeceu, me abraçou e agradeceu novamente. Despedi-me olhando um pouco para trás, ainda percebendo os agradecimentos perdidos em um olhar de “tudo branco”.
No meu caminho de volta, não sabia mais quem era o cego. Quem via um futuro branco pela frente. Quem à de se levar culpa pelo roubo das cores que a luz nos entrega? Onde se deposita a certeza que no fim vai ficar tudo bem? Em qual esquina os homens assumem sua taxa de arrogância? Se um dia lhe faltar a sã consciência, o que será verdade?
Gostaria de falar sobre Felicidade, dor, vida, vontade. Falar sobre como o mundo é injusto ou como não valorizamos os dias que nos passa. Reclamar da falta de consideração pela natureza e todo o presente que ela nos da. Reclamar do mesquinho ou do hipócrita, do rico e do pobre. Do nobre ou do plebeu. Dizer um pouco sobre a falta de amor ou ate de dinheiro. Sobre política e religião. Sobre as divergências de opiniões não respeitadas ou sobre a fé cega em ideais. Gostaria de falar sobre o valor dos filhos e dos pais, dos amigos e ate dos animais. Mas, Saramago estava certo. Estamos todos cegos. Ou como Drummond já escreveu que cada um tem seu pedaço de verdade. Cada um tem sua bengala da qual fica a tatear o escuro na certeza de que será avisado por qualquer perigo futuro.
Mais de trinta anos de luz e tudo se foi em apenas trezentos e sessenta e cinco dias.

No fim da minha caminhada, sobrou apenas uma pergunta; Quando será minha vez?