domingo, 2 de dezembro de 2018

CALABOCA


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Eu conheço todos os seus blefes.
Mas pago porque gosto de te ver ganhar.
Salta de gata no meu colo
Mas eu sei que só quer me arranhar
Rebola,
Chupa gostoso até gozar.
Senta mas não se aprese em levantar.
Deixa seu peito aqui.
Mas língua não pode parar.
Para. Sente o sino tocar.
E grita!
Não deixa o coral abafar!
Vai!
Vem!
Vai!
Vai!
Para. Ajeita.
Vai!
Te prendo. Aperto. Amarro.
Esfolo meus dedos nos teus.
Se xingo finge que sofre,
Fodo seu cu como um deus.
E goza. Geme rasgado.
Num grito apertado pra eu atroar.
Depois,
Fica mansinha.
Te faço um carinho, te beijo denguinho,
E te dou cafuné.
Então, te mordo chupado,
Pra ficar bem lembrado
Que tu é minha mulher.

UMA BREVE OBSERVAÇÃO

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Indiscutivelmente, meus antepassados não fizeram as mesmas questões que me faço hoje. Exageradamente, as disparidades que vislumbro em cada roda de conversa, é desesperadora. Como não conseguem ver? O evidente nunca esteve tão claro. A cegueira moral entregue e desenhada na tabua do cu de cada cidadão, apaga a verdade terrível de suas estranhas realidades. O novo classe média gabasse de suas exaustivas e dolorosas horas de trabalho para finalizar rindo de sua tragédia, adquirindo algum bem absurdamente caro em um país de terceiro mundo, onde SÓ o fato de habitar neste solo, me faz intercontinentalmente, atrasado. A ignorância política, defensora de extremos esdrúxulos, comovem cidadãos manipulados que de bom e feliz agrado, realizam seu festival de bizarrices. Um povo com uma ilusão exaustivamente repetida de que seus políticos representam seus humildes e imundos votos. Esses últimos são desprezíveis e já conhecidos. E dos outros? Digo sobre as causas morais, religiosas, as causas do coração e todas essas outras dependências químicas que meu corpo transborda. O ódio para este povo é como uma fogueira quente. Indomável, incapaz de ser apreciada ou tocada. Se tornando assim um ser descontrolado e desconhecido pelos seus possuidores. Do amor ainda entendem como posse, suposição, sexo e muita mentira. E a moral? Ah, essa eu nem sei por onde anda. Os homo sapiens insistem em ganhar-se em cima do ganho. Seja ele material ou abstrato. O conceito moral perverte-se como uma meretriz em promoção. Mas de todo mal que vejo, o que mais temo são as falsas ilusões de auto realidade. Pobres coitados, parvos regidos por sua libido, caminham a beira de si sem coragem de precipitar-se no inferno de vossas vidas. Inferno esse que é drasticamente salvador. Remoem suas almas com um fio solto gritando em grande voz “VEJAM, EU CONTROLO MEU MUNDO”. Sofram ainda mais, amigos. E a praga proliferasse que quase posso ver Moises gritando dos montes. Deuses de todos os lados me atropelam a fé. Alguns desejam viver demais, outros de menos. Tudo depende de qual céu você vai ficar hospedado, até que tudo volte novamente, como creem outros. Crenças com rituais satânicos que são repetidos diariamente em cada igreja ou capela. Me pergunto quanto medo foi necessário para criar tantos deuses. Mas confesso, são seres curiosos. Cada um configurado através dos anos para ser exatamente o que são. Maquinas biológicas funcionando num universo de ciclos intermináveis, expelindo existência onde não conhecem nem sua humilde essência. Digo humilde pois jamais entenderam a grande deusa, Morte. Essa sim detém o poder de tudo que se pode contemplar nas capacidades criativas de uma mente, que cogita a possibilidade de vida em qualquer lugar desse além mar do universo. Quando esta decide que algo deve findar, a condenação é garantida. Enfim, minha dor é também meu prazer. Meu castigo tornou-se passatempo tedioso e necessário. Sádico masoquista, gozo da vida ouvindo o gemer deliciosamente falso de meus adoráveis companheiros.

Escritor

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     Existe uma certa tristeza em todo escritor.
     Não se é possível interpretar o mundo sem um certo ar de solidão. Um bom poeta é um exímio solitário. A capacidade do artista em alcançar as emoções dos atentos não está na beleza de sua criação, mas sim na profundidade de sua dor. A tradução de um sentimento é proporcionalmente difícil a intepretação de uma língua oculta. Não basta escrever como as nuvens são leves ou as rosas perfumadas, uma boa e verdadeira arte traz consigo um ar gélido de solidão. Acalentam-se os ouvintes nas poltronas enquanto um pobre coitado reproduz aquilo que ele carrega em mente e alma com uma intensidade satânica de dor. Seja na música, poesia, filmes, pinturas ou qualquer outra transcendência. Toda arte é triste. Os quadros representam saudades e as canções fins trágicos. Até as expressões aparentemente felizes são interpretações hostis de desespero por algo melhor.
     Engana-se quem acha que o bom artista é um bom vivente. Ao artista, viver é um desaforo universal. Desesperar-se na necessidade de explosão através de um vulto rápido de expressão poética é um litigio e um bênção. Ao escritor então, a pior das tarefas.
     Ao escritor faltam pincéis, plumas, desenhos, fotos e canções. Á patuleia, resta a escrita, essa que nem quando se quer dizer, consegue dizer. Cansativamente, o desinteresse público e seu seletivo trabalho ao escrever os tornam cirurgiões de sentimentos. Ao pintor, a tinta para dar cor aos seus devaneios. Ao musico, as melodias mantras para suas hipnoses. E ao escritor, que ferramenta afia sua ideia? Pois a escrita por si só não gera comoção. Ao coitado resta tentar desenhar suas fotos na mente de cada olhar tranquilo, e com sua própria voz em seus ouvidos, recria personagens e paraísos lidos em um papel com palavras desorganizadamente ajeitadas em um samba de pausas e sons.
     Indiscutivelmente, o escritor vaga num universo de impossibilidades de tradução, quando nem um parágrafo consegue explicar as sensações de um dia comum. A esses dou o meu lamento. Sofram, párias. Talvez assim essa infelicidade que lhes transbordam, encantem pequenos oculares, quiçá, sejam até entendidos.

ORGULHO





Partiu querendo ficar
Calou mas queria falar
Sentiu e deixou quieto
Chorou e escondeu a dor.
Andou querendo deitar
Odiou quando quis amor
Gritou querendo parar
Desejou e fez desdém.
Sujou querendo lavar
Aceitou querendo negar
Sorriu querendo clamar
Pediu o mal querendo bem
Ficou só, querendo alguém.
Se em sanidade não esta certo,
Porque em loucura é tão correto?
A razão procura o fim
Mas o orgulho a desolação.
Porque em mentes tão saudáveis
O orgulho fala mais que o coração?

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Fracasse


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     O desespero pelo sucesso e a necessidade de ganho material, levando o indivíduo a um suposto crescimento de vida onde as coisas que se conquista são as provas de que o caminho está correto, é o absurdo mais escandaloso que vejo nas minhas bolhas sociais.
     Perder faz parte do processo evolutivo intelectual de todos. Quem não perde, não ganha.
     A intensidade de cada um não importa, toda dor é dor e todo ganho é ganho. Não se trata de justificativa para aceitar a derrota e sim de realidade intrínseca.
     Aceitar essa ideia não é largar tudo que se está fazendo para adquirir coisas ou pessoas e defenestrar qualquer meta ou causa. O segredo está no equilíbrio. Saber que preciso, mas entender, que não conseguir também é uma vitória. É o primeiro passo para o alivio desse enorme fardo.
     Você não é sua roupa, seu cartão, seu emprego, sua formação, seu dinheiro ou qualquer outro tipo de absurdo que te faz "vivo" nesse sistema.
     Você é carbono, um animal. Não se exija desnecessariamente.
     A Morte é deus, e assim como todos os outros, ela está pouco se importando com você.
     Respira. Se o amor é breve, a vida é mais ainda.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Desencontro

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Me olha
De longe, suspeito,
Como quem não quer.
Mas queira,
Me leve,
Fácil,
Pra uma cama qualquer.

Me toma
Me cheira de longe
Me morde inteira
Com língua
Faceira,
Por dias e dias
Me faz ser mulher.

Com flores
Sussurros e amores,
Nos parques e ruas
Revela pro mundo,
co'Gestos pequenos,
Mudos e surdos,
O teu amor e minha fé.

Me ilude
Não mande mais cartas
Nem juras de amor.
Me deixe a dispor
Sofrendo sozinha,
Minha noite definha
Sem o teu calor.

Depois,
Me encante de novo
Me faça teu ouro.
Que eu juro,
Fingir odiar
Todos teus beijos
Afetos e cheiros
E te mandar pra longe de mim

Mas fique
Não ligue pros gritos
Nem tapas e discos
Pois tudo que falo
Mesmo engasgado,
É o oposto do estrago
Do meu amor sem fim.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

PORQUE EU NÃO VOTO


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"a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o governo". Assim que Maquiavel definiu política.  

Desde seu nascimento na Grécia, a intenção da política foi sempre ouvir determinados grupos que defendiam seus ideais e desejos através da escolha de seus representantes. Se eu gostava de azul, montava um grupo com uma galera que gosta de azul, escolhia quem era melhor de dialética pra defender o azul e depois ia todo mundo lá dizer que o grande deputado azul era a o cidadão perfeito para defender os direitos do grupo e da nação. Sim, a democracia também nasceu na Grécia. E a tradução da palavra é GOVERNO DO POVO (Poder do Povo, pra facilitar). E assim segue o fluxo. Eu tenho princípios e acredito em determinadas coisas. Se não for eu, escolho alguém que represente bem meu papel, depois, através do meu direito democrático de escolher alguém para me representar, voto no meu indivíduo e aprecio a beleza de ter um Estado comandado por alguém que acredita na maioria dos meus conceitos ou me contento com a derrota sabendo que o outro cidadão teve mais votos por que um grupo maior acreditava nele. Depois disso a máquina do Estado continua rodando sob o comando do eleito preferido e seus seguidores e apoiadores. Isso é a política simples sem dificuldades.
Seria lindo.
Eu, como a maioria, resisto a conflitos desnecessários e cansativos discursões que são meramente religiosas e na maioria das vezes, inútil. Mas exerço aqui o mesmo direito democrático fixado em vossas mentes. Sabendo que a política é um jogo de poder e representação, me alieno da obrigação de escolher um candidato que foge dos meus princípios morais, reais e imutáveis e decido não apoiar quem não condiz com minhas verdadeiras motivações. Votar em alguém que não tem possiblidade de ser eleito mas que condiz com minhas ideias, é uma das únicas demonstrações de política possível e real. Ali fica o simbolismo da ideologia e das vontades de uma nação ou grupo de pessoas. Se em algum momento, o voto foi para quem tinha mais chances de derrubar seu adversário, parabéns, você ainda não entendeu a política e acaba de trair seu próprio destino.
 “O voto é individual e secreto. A escolha é sua. Pense bem, avalie os candidatos e exerça seu direito”. Estas são as frases às quais se agarra o senso comum e também o senso institucional, como a última tábua da salvação da consciência de cada indivíduo. O presidente não será ou deixará de ser eleito por causa de um voto a mais ou a menos. Ou seja, meu voto não faz diferença – embora o discurso da moralidade social não o admita. Ao contrário do que afirma o pseudo-individualismo, o voto é social, e não individual. O voto só cumpre sua função social quando inserido numa ação coletiva. Nessa perspectiva, são as massas que sustentam o Estado Democrático de Direito, e não os indivíduos. Assim, o voto será tanto mais consciente e efetivo quanto mais aglutinador de forças coletivas, se constituindo num vetor das potências sociais. Foi assim, por exemplo, que um ex-operário tornou-se presidente do Brasil.
Entretanto, alcançado este status, surge todo tipo de reação negativa – falta consciência de classe, o país é de mentalidade subdesenvolvida, a mídia controla e comanda a política, os políticos são corruptos, os eleitores são irresponsáveis, o povo tem memória curta, o poder sempre estará com os endinheirados, eu não gosto de política, os trabalhadores estão desmotivados, o contexto histórico não é propício, as pessoas são individualistas, as massas são alienadas, bla, bla, bla. O poço das justificativas é infinito. E, ao fim, volta-se ao slogan: “exerça seu direito com consciência!”. O poço da hipocrisia e da falta de coragem é infinito. Embora muitas das justificativas sejam coerentes e consequentes, é evidente que alguns aspectos estão sendo negligenciados.
Brasil e mundo afora, devem existir outros tantos indivíduos, encaixados ou não em modelos, que tenham relações sociais fracas – uns admitindo, outros não; uns percebendo, outros não; uns conformados, outros não. O que importa aqui é o que diz respeito à participação política, mais especificamente na via eleitoral. Sendo o voto social, é evidente que para esses indivíduos o voto não cumpre sua função. São pessoas sem qualquer influência coletiva e, geralmente, distantes das influências sociais. Por certo que não sou um átomo – basta observar que dependo de muitas forças sociais para comer, por exemplo – mas também não participo da vida de gado, sou incapaz de convencer ou de ser convencido de tal ou qual opção de voto. E, repito, voto que não se insere em determinada força social não tem qualquer sentido.
Esta é a minha própria alienação, e de outros, certamente, mas vejo que a maioria está submetida à face oposta da mesma moeda. Alienação de rebanho, manipulável e suscetível (à propaganda, às lideranças, ao senso comum, à opinião do vizinho, à mídia, ao discurso técnico-científico, às pesquisas, à opinião pública. Esta é a miséria do caráter social do voto, embora não deixe de ser exuberante a força coletiva que o anima.
Se a política é a arte do exercício de poder de influência de grupos sobre a massa, por que é que continuam a convocar os indivíduos às eleições?
Primeiro, que existe de fato um fenômeno social que carrega pessoas à parte de todo e qualquer senso de identificação e ação coletivas. Efeito manada.
Segundo, que tais pessoas podem duvidar, rejeitar e combater todas as permanentes pressões sociais que tentam enquadrá-las, arrebanhá-las, seduzi-las e justificá-las em nome de bandeiras, slogans, grupos, instituições ou coletividades que fazem sentido apenas para rebanhos.
Terceiro, que para os indivíduos, peso na consciência e apelos morais não justificam voto. Um rebanho de vacas pode ser mais atraente do que um rebanho suíno, mas ainda é rebanho.
Quarto, que a resposta mais adequada ao voto compulsório é o voto nulo. Pois a condição primeira para o combate à alienação é o próprio reconhecimento radical de sua existência. A demonstração de insatisfação, única possível até agora, que poderá começar a sinalizar a insatisfação com o status quo.
Ausência-de-si! Esta é a verdadeira palavra de ordem da sociedade, principalmente em tempos de eleições. Intelectuais votando em prol de operários, operários em prol de burgueses ressentidos, burgueses ressentidos em prol de ambientalistas, ambientalistas em prol de empresários, empresários em prol de cristãos, cristãos em prol de democratas, democratas em prol de trabalhadores, trabalhadores em prol de pseudo-radicais, pseudo-radicais em prol de miseráveis, miseráveis em prol deles mesmos, e eles mesmos em prol da máquina político-partidária! E por ai vai.
Vislumbrando essa pequena parte do processo político e seus princípios, me abstenho de aceitar qualquer tipo de opressão feita a minha obrigação de eleger alguém (incluo a pessoa jurídica do partido) que represente realmente os ideais em qual acredito. Não iludido, mas como um touro em guerra, recuso aceitar minha aniquilação moral e social.
E por fim, de todo modo, apoio e defendo todos os direitos e deveres daqueles que ativamente participam desse jogo espetacularmente manipulado e hipócrita do qual, em sua grande maioria, são alienados lindamente disfarçados de pseudos-entendidos políticos. Sem dúvida nenhuma, não sou a maior autoridade política, mas sou presidente de minhas ações e governante de minhas vontades. E por agora, nenhum candidato é realmente bom para minha Política.
Se, na sua mente, não votar é aceitar que alguém tome suas decisões, votar é pedir que ela faça o que quiser com você. Um estupro político ideológico. E me desculpem, mas isso não representa minha vida, minhas ideias e muito menos meu Povo.


“Naquela época meu instinto decidiu-se de maneira inexorável contra a continuação da condescendência, do seguir-aos outros, do enganar-a-mim-mesmo. Qualquer modo de vida, as condições mais desfavoráveis, enfermidade, pobreza – tudo me parecia preferível àquela ‘ausência de si’ indigna à qual eu me entregara por ignorância, por juventude, e na qual eu acabara ficando pendurado mais tarde por preguiça, devido ao assim chamado ‘sentimento do dever’.”

sábado, 6 de outubro de 2018

Apenas um poema




Em todo olhar existe uma tristeza
Em toda cabeça baixa há um sofrimento
Em todo caminhar perdido reside uma dor
Em todo abraço apertado sofre um abandono.
Em todo falar triste habita um pedido
Em todo sorriso fraco vive uma historia
Em toda noite mora uma vontade
Em todo dia nasce uma saudade.
Em toda dor há um pedido
Que se pede sem pedir
Que em tudo que se faça
Só te peço pra não ir.
Mas se ainda sim se for
Viva ainda mais feliz
Por que em todo meu coração que fica
Você foi tudo que sempre quis.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cotidiano


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  Madrugada. A luz da geladeira ilumina a cozinha. Lá dentro, garrafas de água quase vazias e algumas frutas e vasilhas com algum resto de comida de uma semana atrás. Maturidade é conseguir encher as garras ao invés de guardar vazias sem utilidade nenhuma.
     Pego o leite e tomo direto na garrafa. Não entendo porque algumas pessoas ainda não tomam leite puro. É melhor e ainda ajuda a tirar aquele gosto ruim de qualquer coisa da boca. Leite é vida. A água ajuda um pouco também.
     Sento na bancada do lado da fruteira com bananas pretas e aparentemente podres. Aparentemente. As bananas sempre enganam. Aprendizado importante pra quem mora só. Do contrário das maçãs, que na maioria das vezes fazem a gente parecer que está mordendo poliestireno. Isopor. Tipo esponja de aço que a gente chama de Bombril.
     Tento entender que horas são mas o escuro não deixa eu ver o relógio da parede com precisão. Odeio aquele tique taque ensurdecedor que os ponteiros fazem quando não estão acompanhados por algum som comum do dia a dia. Mas aquele era presente, tinha que ficar lá, fazendo zoada pela casa toda. De toda maneira não importa, é madrugada. As horas não são menos relevantes. Só quando passa de quatro horas, que é quando o sono é mais gostoso e você sabe que tem pouco tempo pra se fingir de morto em cima da cama.
     Melhor ir dormir. Fecho a geladeira.
     Nas sombras de cantos sempre tem algum vulto satânico esperando minha alma pura vacilar pra me carregar pro inferno. Maldito instinto de sobrevivência, o medo nos preserva mas nos limita. Aos poucos meus olhos se aclimam com a escuridão e consigo discernir melhor os demônios.
     Meu peito dói. Dói mais um pouco. Paro e me apoio na porta. A dor vem mais forte. Finco os dedos apertando o peito inutilmente.
     Vejo a garrafa de leite na bancada enquanto vou de encontro ao chão.
     - Eu devia ter enchido as garrafas de água.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Brócolis



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- como a gente sabe que gosta de alguma coisa papai?
- como assim filho?
- tipo, como eu sei que gosto de sorvete?
- simples filhote. Coloca na boca, se gostar, você gosta. Se não gostar, não gosta.
- e de brócolis?
- brócolis é um pouco difícil no começo mas depois fica uma delícia.
- e se não ficar?
- sempre fica. E mesmo que você não ache tão bom, faz bem pra saúde.
- então eu tenho que gostar daquilo que não gosto porque isso faz bem pra alguma coisa?
“Ele tem só 6 anos mesmo?”, pensou o pai.
- sim – respondeu – algumas coisas são ruins mas a gente acostuma.
A criança abaixou a cabeça um pouco para refletir e continuou;
- como saber então do que eu gosto de verdade?
- por que está preocupado em saber disso?
- porque minha tia falou que eu tenho que andar com pessoas que gostam das mesas coisas que eu, mas se eu não sei do que gosto de verdade, como sei que vou estar andando com pessoas que gosto?
- você acha isso difícil?
- sim – respondeu desanimado.
- vou te ajudar. A maneira mais fácil e simples de te responder seria dizendo que você deve conhecer tudo pra descobrir do que gosta ou não. A maioria das pessoas acredita que seja simples assim, mas pensar nisso é um trabalho e tanto. Tudo que você veste, vê, come, assiste, fala e tudo mais, é um conteúdo produzido por alguém que lá atrás teve um certo interesse em te passar isso. As músicas que você ouve são importadas e enfiadas no seu ouvido. Essas por sua vez se repetem ao longo dos anos e aquele “brócolis” de música acaba se tornando um lindo pudim delicioso depois de tanta insistência. Isso acontece com tudo hoje. Comida, roupa, teatro, religião, livros, noticia, tudo. Todas as informações que você tem hoje são alimento para deixar a sua bolha funcionando...
- bolha?
- isso. Exemplo; seus colegas são Cristãos?
- sim.
- por que, dentre milhares de religiões no mundo, seus colegas são cristãos?
- não sei – respondeu curioso.
- não posso dizer por tudo mundo, mas em geral, eles adoram ao único deus porque os pais fazem isso e os pais dos pais também e por ai vai. E se você voltar bastante no tempo vai descobrir que alguém lá atrás chegou e disse que ser cristão era bom. Existem religiões de mais de quatro mil anos antes de Cristo, porque o cristianismo, que tem uns dois mil anos, é a certa? Isso é a Bolha que falei. As pessoas se apegam as coisas que fazem sentido pra elas e as defendem sem nem saber suas origens. Isso serve para todas as outras culturas com religiões ou costumes diferentes.
- então é errado ser cristão?
- é errado ser idiota meu amor. Todo mundo pode ser o que quiser.
- então eles estão errados mas não estão errados?
- pra dizer que algo não é verdadeiro ou está errado, você sempre tem que ter a resposta certa, a verdade ou o padrão que deve ser usado como medida. Eles não estão errados, só medem o mundo pela bolha deles. Assim também na política, música, moda e essas coisas.
- confuso.
- é. Eu sei. Também acho estranho.
- mas o mundo é enorme, como eu vou conhecer tudo pra saber do que gosto?
- isso é impossível filhote. Mas posso te dar uma sugestão que acho que vai gostar.
- qual? – olhou esperançoso.
- goste de gostar das coisas. Comece pelas coisas simples; comida, roupa, música. Depois avance. Converse com pessoas opostas a você, vá em ambientes que você antes se sentia um peixe fora da agua. E por último e mais difícil, olhe pra você.
- no espelho?
- não – riu – na alma. Descubra se alguns sentimentos e atitudes que você tem são realmente seus ou se alguém um dia te deu ele igual deram o cristianismo pros seus colegas. A gente aprende a ficar com raiva quando alguém nos irrita, a chorar quando nos magoam, a rir quando nos alegram e no final estamos num fluxo eterno de ação e reação na confiança de que tudo isso é o “Eu” que defendemos com tanta força. Algumas coisas são instinto, coisa de animal, outras são enfiadas na gente sem a gente pedir. Não fugir disso é aceitar a sua bolha como ela é.
- e isso é ruim?
- não. De maneira nenhuma. Como eu disse, pra dizer se é certo ou não você deve ter a verdade pra usar de padrão. E tome cuidado, porque em todas as bolhas existem verdades irrefutáveis.
- mas papai, como vou saber se eu também não estou numa bolha?
- bolhas são universos particulares de cada um ou de um certo grupo de pessoas. Se você conseguir conviver com todas elas, e eu digo CONVIVER mesmo, entendendo os motivos para as pessoas estarem ali fazendo ou vivendo como estão, você está no caminho certo.
- entendi.
- quer um sorvete pra comemorar?
- acho que vou querer um brócolis papai.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Xiva

Shiva ou Xiva é um deus ("Deva") hindu, o Destruidor (ou o Transformador), participante da Trimurti juntamente com Brama (Brahma), o Criad...


Novamente tudo se dissolve
E Xiva demostra todo seu poder
Reencarnações de destruição
Insistem em subsistir

Ó grande deusa
Do equilíbrio e do fim
Designifique-me até um ser
Que seja capaz de renascer

E que a morte,
Essa que embeleza tua vida
Seja sempre guia
Para luz, sol que irradia

Ioga, chacra, salve rei
De todos os deuses e belezas
Tu só és a mais temida
Porque a morte é teu zelar

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Abandone seus amigos


Atividades, desenhos, moldes, cânticos, vídeos e joguinhos bíblicos para o apoio do Ministério Infantil da Igreja.


Abandone seus amigos.
Vá ao cinema sozinho.
Sente na praça.
Faça um lanche.
Leia duas páginas de um livro debaixo de uma árvore.
Porque não importa terminar,
Mas sempre continuar.
Tome vinho só
Ao som de uma música ruim.
Algumas coisas só têm seu valor no silêncio.
Abrace um desconhecido.
Fique em casa.
Saia.
Busque a alegria da solidão.
Não tenha medo.
Aceite que você é uma péssima companhia
E se leve pra tomar um porre.
Vá ao museu.
Um musical.
Exposição de arte.
Ande.
Ande sem rumo.
A vida já tem tantos propósitos
Uma noite a esmo não vai fazer falta.
Descubra suas qualidades
Mas ainda mais seus demônios.
O melhor inimigo é aquele que conhecemos.
Diga sim para o que não quer
E foda-se onde isso pode dar.
Decore um poema.
Um verso.
Cite uma frase.
O mundo é carente de novidades.
Aprenda uma piada sem graça.
Seja só e não tenha medo da verdade.
Esqueça os clichês.
Corações solitários batem com mais dúvidas
E enfartam com fúteis certezas.
Depois volte.
Mas acima de tudo,
Nunca esqueça de ir.

Fotografia

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       As luzes da cidade embelezavam o fim de noite.
       A janela do apartamento era o único lugar que ainda sentia paz no caos de sua vida.
       Georgia On My Mind tocava no fundo escuro do quarto. Roupas largadas pelos cantos, em cima dos moveis e cama. A iluminação vinha toda de fora, do maldito poste de luz do outro lado da rua que atrapalhava a visão das estrelas em dia de céu limpo. Ela vestia uma camisa velha branca, parecia que tinha sido feita na segunda guerra em algum campo de concentração sujo e triste, e tragava seu cigarro canábico sem pressa de bater. Nada além disso.
       Quando foi que a vida ficou tão complicada?
       Seu corpo se fundia com as sombras no escuro do quarto e a fumaça sumia pela janela incomodando algum vizinho moralista e cheio de convicções. A camisa só chegava até aquela dobrinha onde começa a parte de trás da coxa dando um ar sensual aquela triste solidão. O momento fazia com que a infelicidade de tantos fracassos se tornasse poética e suportável.
       Num solavanco sua atenção é roubada. Uma derrapada e um estrondo. As luzes da cidade se apagam e seu quarto já não é o único sombrio.
       Ela ensaia um sorriso rápido e levanta seus olhos para o céu poderosamente estrelado. Orion lhe cumprimenta e as Plêiades acenam seu brilho.
       O Universo pertence aos fracassados.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Por favor


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Me devora.
Igual escuridão e luz.

Faz amor comigo.
Só não transa,
Não tira todo nosso romance.

Me chupa.
Igual sorvete em sol.

Come minha alma.
Só não me mata,
Não depois de tanta vida.

Me lambe.
Igual pisar mansinho.

E no fim, caída tremula,

Só não me abandona
Porque tu é meu saciar
E toda minha escassez

Gabrieélaa...

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      Recentemente, li numa reportagem na BBC que mudamos de ideia com frequência por vários fatores já conhecidos, porém um dos mais fortes influentes nessa ação, é o nosso corpo.
      A notícia citava vários estudos e testes feitos pelo mundo de pesquisadores que diziam que mudamos as crenças e opiniões para nos privar da dor, do incomodo.
Basicamente, algumas mudanças de ideias, são só seu corpo dando um jeito de continuar a vida sem ficar perdendo tempo com problemas ou situações de estresse. Se algo me incomoda, eu reluto. Se continua a incomodar, eu aceito. Se continua constante, eu não apoio, mas já não tenho mais tanta antipatia. Determinando assim, algo já sabido, que ninguém muda de ideia porque quer ou por “agora ter entendido”. Você está sendo guiado por um conjunto de processos internos que dizem lá dentro; “gente. Pelo amor de deus. Foda-se né. Nem é isso tudo” ou “galera, ou a gente aceita ou isso aqui vai virar uma zona”.
      Não da pra viver com raiva ou frustrado com tudo.
      “Tudo flui. Nada persiste ou permanece”. Heráclito se vangloria de ser tão facilmente conhecido mesmo para o menor dos conhecedores de filosofia. Você não precisa ser um gênio pra saber disso, mas o ponto principal não é esse. A questão é; quais decisões são verdadeiramente minhas?
      Até que ponto você comanda verdadeiramente sua mente e opinião?
      Um exemplo fácil e prático para visualizar melhor a ideia, é pensar naquele relacionamento que permanecem a tempos, com abusos e coodependências absurdas, e mesmo assim seus participantes justificam seus atos e diversas vezes os aceitam, apenas porque a mente entendeu que, sofrer é melhor do que sofrer. Ou aquele “até que não é tão ruim” que a gente solta quando nossa opinião não foi aceita e somos obrigados a conviver com aquilo que a pouco tempo, causava um pequeno achaque.
      Aceitar a mudança ou mudar com novas ideias, é permitir ao corpo e mente que ele possa trabalhar e executar trabalhos mais importantes, tanto físicos como mentais. Deixar a mente livre de predefinições, preconceitos e até de determinações que “são o que eu sou” que acreditamos ser nosso Eu, é o primeiro passo para se formar o verdadeiro Eu, do latim; Ego. No português; Eu.  Do nordestines; é nóis macho.
      O primeiro passo para Ser quem verdadeiramente você quer ser, é parar de querer ser quem você é. Ficou quase uma frase motivacional. Mas passa longe disso. Dizer sim para tantos nãos, ou vice e versa, gera um conflito extremamente necessário para a verdadeira revolução intelectual, emocional e social.
      Reaprenda-se. Desinreinvente-se [sic]. Destrua-se. Para que talvez assim você realmente exista. Não se esqueça que tudo que você pensa e é até agora, é um conjunto de carga genética, social e de várias outras coisas que formam essa sua cabeça dura e estranha.
      Me faço então a pergunta; Eu quero ser aquilo que me deram indiscutivelmente pra ser ou estou feliz com o que sou? Se está feliz com o que é, pense bem, talvez não seja você decidindo.
     Pra mim seria basicamente; eu realmente odeio cebola, ou apenas me serviram um prato ruim?

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Minha mãe morreu




     E é a primeira vez que eu vejo sentido no meu choro.
     Cansei de passar vergonha com minha mãe rindo em velório.
     No fim da igreja, enquanto um pouco mais de quatrocentas pessoas lotavam o templo, eu a observava naquele caixão e me perguntava em qual canto ela estaria contando uma piada sem graça e rindo com alguns amigos. Eu ri.
     Nos últimos dias, conheci pessoas que nunca vi na vida e recebi conforto de várias outras que em tudo que falavam, diziam uma coisa em comum; “Aquela tua mãe era doida”. Eu sempre pensava calado; “e tu nem conheceu metade dela...”.
     Minha mãe não valia absolutamente nada. Ela odiava todo mundo que ficava “santificando” as pessoas que morriam. Obviamente, respeitando a educação que ela me deu, digo que aquela mulher era sem noção. E é por isso que ela era maravilhosa. Ela juntava latinha só para conseguir vender e comprar um Baré pra gente. Minha mãe me bateu tanto, que eu acredito que as suas dores de tendinite eram reflexo disso. Um dia falei isso pra ela e ouvi; “se eu tivesse te batido o tanto que tu merecia, nem perna eu tinha mais”. E era assim que ela amava os filhos.
     Nunca cansava de dizer que era filha de cangaceiro, nascida e criada na Bahia e sem muita paciência pra frescura. Repetia sempre que possível seu apelido quando tinha que trabalhar numa carroça quando mais nova. A menina da carroça. Bem conveniente. Passou fome, passou frio, passou raiva. Esse último mais do que os outros. Sempre disse que escrevia e eu só acreditei no dia que li um poema que ela mesmo tinha escrito pra sua mãe um pouco antes dela morrer. Quando terminei de ler, ela levantou e foi aos prantos pro quarto. Hoje eu a entendo bem. Pra você ser mãe, tem que decorar um dilema; “quando eu morrer você vai sentir minha falta...”. Nenhuma mãe está apta a ser mãe sem dizer essas palavras. Minha mãe repetia toda semana entre palavrões que ela proibia a gente de falar e havaianas voadoras. Novamente ela estava certa. Depois dessa dor que senti quando ouvi no celular que não a veria mais, nenhuma dor dói tanto assim. Até isso mãe deixa arrumado pra gente. Nenhum problema agora é tão grande. Três vezes chorei de desespero e tristeza na vida, nas duas primeiras minha mãe estava do outro lado da linha. Na última a mensagem nem chegou.
     Quando mais novo, algumas vezes eu ficava sozinho com ela em casa. Ainda batia um pouco mais abaixo da sua cintura. Nesses dias a gente ia comer numa lanchonete, dois x-saladas e um suco. Aquilo era o auge da minha existência. Quando você chega em certa idade, parece que sua mãe não vai mais morrer. Você imagina ela velha e doente numa cama, reclamando da vida e falando que você não sabe criar seu filho direito. Eu já ouvi milhares de explicações e teorias sobre pra onde ela pode ter ido. Isso não me importa mais. Minha mente esta onde ela passou.
     Vocês conheceram a pastora, amiga, irmã, colega e várias outras Solanges. Mas só três conheceram a Mãe. Eu, por ter um leve problema de personalidade inquieta, tive que ter uma atenção dobrada. Minha mãe me ensinou a ler com uma faca e um cinto do lado. Não deu tempo de saber se ela usaria a faca, eu aprendi a ler no mesmo dia. Sim, o cinto foi bem útil.
     É verdade todas as coisas que falam quando a mãe morre.
     Minha mãe escrevia poesia, dava sexta básica e sempre ajudou todo mundo que bateu na sua porta. Antes do carro bater, me disseram que ela tinha acabado de contar uma piada. Eu amava ela. Entre brigas e cobranças, ela sempre deixou claro que estava sempre lá.
     Se conheceu minha mãe, saiba que ela foi muito mais do que você imaginava e muito pior do que você pensa. Sentirei essa dor eternamente e a saudade vai ocupar esse buraco enorme na alma até onde eu puder levar, mas jamais deixarei de rir das coisas absurdas que ela fazia.
     No epitáfio deveria ter ficado “Escorpiana, evangélica, mãe e sexualmente ativa” (isso ela gritava aos quatro cantos). Solange saiu de cena com aplausos e rosas aos seus pés. Enterrou uma mãe e um irmão. Cumpriu seu papel de ser humano e me ensinou a ser humano.
     Vou chorar pra sempre e sua falta nunca será suprida, mas sempre que em lagrimas eu lembrar da minha mãe, vou pensar; “Ela com certeza estaria rindo”.

     Mãe, trás a toalha. Minha alma esta imersa em lagrimas.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Uma Carta Para Amanda

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Caro amigo,
Faz algum tempo que não lhe escrevo. As coisas tomaram um rumo diferente do que o esperado. Caso se lembre de minha última carta - acredito que não pois sua memória é de um guaxinim em chamas - saberá de meu eterno litigio. Não se preocupe, contarei novamente pois um absurdo depende do outro para que você possa entender.Já percebi meu mínimo lugar no cosmo e minha triste, inútil e repetitiva existência. Digo repetitiva pois como disse antes, fui amaldiçoado pelo vírus do Saber. Diferente de todos que me cercam, consigo deslumbrar todas minhas vidas antigas. Não se confunda bastardo, não se trata da boa e velha reencarnação pregada por alguns, mas de algo muito mais complexo, do qual não existem árvores capazes de produzir papeis para tantas cartas. Tamanha realidade me trouxe enfado de corpo e alma. Rever tantas atitudes e pessoas, repetindo a cada vida, cumprindo seus personagens nesse teatro inventado sem perceberem o quão são semelhantes a roedores dentro de uma roda velha, me causa achaque. Mas não tema, já passei da fase da revolta, da tristeza, da ira e de todas as outras, e se há algo além disso tudo, que esse Ser lhe prive de tamanha dor. Um dia desses sai como covarde de um insulto no bar pois até as brigas já são enfadonhas. Já fui carteiro, açougueiro, lutador, guardião, músico, morador de rua, mulher, criança e até político – deste último não tenho muito orgulho – e em todos os casos, o tédio da vida estava sempre presente pois a grande mágica da surpresa diária foi deixando de existir. Até o suicídio perde seu brilho, é como sair de uma festa ruim e ir a outra pior. E é aqui que lhe digo outro absurdo do qual preciso urgentemente de vossa ajuda. Há um item solto nesse pandemônio de repetições. Algo do qual não estou familiarizado, um defeito perfeito. Uma moça.Não. Não pare de ler. Tentarei manter restrito a ladainha de um novo apaixonado. Acima de tudo preciso que me ajude, e lhe direi como.Infelizmente nunca conseguirei retratar tamanha beleza e sensualidade. Seus lábios são esdruxulamente convictos e ela tem um olhar assustador. Até você não conseguiria manter a visão por muito tempo pois as pupilas dessa mulher são um convite para uma noite de porre, aquelas que você fica arrependido de ter bebido tanto e acorda com uma mulher, dois homens e três cachorros numa cama. Mas não é disso que quero falar. Este ser é singular. Longe de mim lhe entupir de extravagantes qualidades que pulam em meus olhos diariamente, ou o quanto esse novo personagem tem feito esse grande passatempo um pouco mais interessante. Do contrário, se existe alguém que se deva evitar, é essa mulher. Ciumenta, egoísta, possuidora de um ego caloroso e estranhamente nervosa, ela tem defeitos pavorosamente atraentes. Sua mente é maléfica e seus pensamentos correm empurrando quem esta a sua frente. Não se pode fraquejar ao seu lado, ela não é do tipo que gosta de pessoas de pernas fracas ou mentes frágeis. Sua língua é veloz em expor ideias que deveriam permanecer na cabeça, mas eu a compreendo. As vezes creio que como eu, ela já viveu tantas vidas que se cansou de mais essa, e digo mais, creio que se perde numa mixórdia de personagens. Quando penso que desvendei seu olhar rápido de canto de olho pra conferir algumas imagens no seu campo de visão e sondar quem a observa ou o ambiente ao seu redor, ela se metamorfoseia numa graciosa e indefesa donzela em perigo, com um sorriso malicioso e convidativo pedindo ajuda para entrar na perdição eterna. Outras horas parece mais grossa que a Arbol del Tule, cuspindo antipatia para todos os lados. Deve estar pensando porque estou com um indivíduo tão problemático. Aqui esta sua resposta e como disse no começo, meu pedido de ajuda.Ela é maravilhosa meu amigo. Suas vidas se embalam todos os dias, me surpreendendo com seus tiques particulares e seus pensamentos abstratamente lógicos. Por cima de toda essa camada de grandes personalidades, existe uma doçura facilmente duvidosa porem extremamente realista. Ela é carinhosa, doce, cuidadosa, visionaria, sexy, extremamente madura e sua grande capacidade de desafeto é proporcional ao seu apego imediato. Como disse, não quero lhe encher de elogios como um velho poeta apaixonado, o que quero é sua ajuda. Preciso que ela lembre-se em todas suas outras futuras vidas, que um dia me conheceu. Preciso que ela me procure e me encontre por toda essa infindável chatice que é a vida. Preciso repetidamente, diariamente, cotidianamente, que ela sempre volte para meu tédio. Preciso que me ajude a deixar uma marca nas finitas eternidades. Preciso que deixe uma carta para Amanda.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

SATANÁS, o cara das boas notícias


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Eu assistia televisão com minha vó quando um comunicado um pouco diferente interrompeu a novela. Um homem moreno, de cabelos curtos, olhos escuros e vestido com um terno preto que só de olhar já dava pra saber que ele custava o preço do meu carro popular, apareceu ajeitando o microfone na sua frente.
- Boa noite pessoal – começou, era de uma simpatia sem igual – acredito que não há maneira mais fácil de dizer isso, mas gostaria de me apresentar; muito prazer, sou Satanás. Esse mesmo que você pensou. Só que sem os chifres, o rabo e a pele vermelha. Gostaria até de aproveitar a oportunidade para agradecer a pessoa que teve essa ótima de ideia de me apresentar assim. Hilário.
- Muda de canal meu filho – reclamou minha vó – odeio noticiário.
Eu até tentei mudar, mas em todos os canais a programação era a mesma. Satanás havia tomado de fato todas as emissoras. E eu que pensava que ele jamais sairia dos canais religiosos.
- Provavelmente alguns de vocês deve estar confusos, então chamei um grande entrevistador para fazer as perguntas que devem ser as mesmas que vocês tem em suas mentes - Logo a imagem abriu e um desses jornalistas famosos apareceu sentado ao lado de Satanás – vamos lá amigo. Vamos esquentar esse programa – falou piscando um olho tentando descontrair.
- Então – a cara do apresentador era a pura imagem do medo – se você está aqui, onde está Deus?
- ÓTIMO – bateu a mão uma na outra e abriu um sorriso feliz – não pensei que fosse perguntar assim de primeira. Esse era um dos assuntos que eu estava ansioso para falar. Você realmente é muito bom. Então, Ele foi embora...
- Que?!
- Exatamente meu amigo, infelizmente o Todo Poderoso não está mais entre nós. Na verdade já faz algum tempo até.
- Como assim – o entrevistador parecia mais nervoso – onde está Deus?
- Sumiu. Viajou. Foi embora. Virou pó. Escafedeu-se.
- Pra onde?
- Não faço ideia. Mas não vamos chorar pelo leite derramado. Vamos nos prender as coisas boas.
- Que coisas boas? Você é Satanás! Vamos todos sofrer no inferno agora?
- Pois é – Satanás se arrumou na cadeira como se fosse dizer algo sério – essa era a outra coisa que eu ia citar. Como falei, tem algum tempo que Deus foi dar um role. Desde então tenho tomado de conta de tudo. Ou seja – abriu os braços mostrando o espaço – bem vindos ao Inferno!
- Odeio programa religioso – praguejou minha vó.
- MEU DEUS! – desesperou-se o apresentador – como assim? Então temos sofrido isso tudo por que você tem dominado o mundo desde sempre?
- EEEi... não me julgue! Eu também sou vítima, esqueceu?!  - olhou com um ar de ter sido insultado – e outra, eu nunca fiz nada. Na verdade esse é um dos pontos que vim apresentar.
- ... – o apresentador permanecia em choque
- Você não é tão bom – desdenhou Satanás – Enfim, close aqui por favor. O que irei dizer a vocês agora é a pura e simples verdade. Deus sumiu e vocês estão sozinhos. Não sei dizer ao certo quando ele foi, mas foi bem antes de O venerarem, ou seja, Deus nunca ouviu suas preces. Tudo que ocorreu até hoje na criação da humanidade foi um processo simples de alguém que colocou um programa para rodar e o largou, autônomo, em algum canto do universo. Desde os milagres aos homicídios. Tudo foi culpa apenas de vocês. Nem eu nem o Criador nos metemos. Não adianta entrar em detalhes pois infelizmente não temos mais tempo pra isso.
- Mas nós nunca fizemos nada!
- Não meu caro, vocês sempre fizeram tudo. Por algum motivo bizarro terceirizaram essa responsabilidade, duvidando de seus próprios potenciais, e digo aqui de passagem que é um insulto até para mim, afinal Deus sumiu mas era muito bom nas coisas que fazia. Olhe pra mim, um maravilhoso Anjo de Luz. Vocês então, programados para serem melhores que nós, simplesmente fuderam com o esquema todo. Eu confesso que se realmente existisse esse inferno de tormenta que tanto falam, meus primeiros funcionários seriam vocês. Grandiosamente criativos na arte de torturar alguém – soltou um sorriso malicioso e uma piscada – maaas, vamos nos prender ao que interessa.
- O que interessa mais que isso?
- Vai todo mundo morrer hoje.
- O  QUE? – o apresentador entrou em desespero.
- E perceba que não falei “um dia”, falei “hoje”.  Mas não olhe pelo lado ruim. Sua vida não era boa antes de você nascer? Então, vai ser do mesmo jeito. Vocês só vão deixar de existir. Não vamos ser hipócritas – ajeitou seu terno – todo mundo já sabia disso. Agora vai ficar parecendo que a culpa é minha.
- Mas assim, do nada? – o apresentador já estava com o cabelo completamente bagunçado e com a gravata torta – não podemos morrer assim.
- Vamos ser realistas né, já faz alguns bilhões de anos que isso tudo aqui começou. Já passou da hora de terminar. E outra, vocês chegaram já no final, a humanidade apareceu tem alguns anos só.
- Mas como isso vai acontecer?
- Aquecimento global. Quem diria que aqueles ripongas estariam certos né – sorriu dando um tapa na perna do apresentador – basicamente o núcleo da terra está muito quente e já já isso tudo vai pelos ares.
- EU NÃO QUERO MORRER – chorava o apresentador.
- Todos vocês querem. Na verdade já fazem isso a muito tempo. Matam e se matam num fluxo lento de homicídio e suicídio. Reclamam e conquistam o mundo apenas para ignorarem o fato de que um dia terão fim. Digo para a alegria de todos, que o fim chegou. Infelizmente não poderei desfrutar dessa grandiosidade pois participo de outra dimensão, que posso dizer que esta muito bem obrigado. Mas cidadãos do mundo, não desanimem. Não posso dizer graças a Deus, mas enfim tudo terminou e suas preocupações e busca pelos motivos de suas existências terá um findar.
- E porque veio nos falar só agora?
- Tédio. Nada muito impressionante.
- Quanto tempo temos – o apresentador já chorava ajoelhado no chão.
- Bem – olhou no relógio – digamos que é hora de Satanás dizer ADEUS. Entendeu, A.DEUS. – levantou rindo – Muito obrigado pela atenção e até nunca mais seus fofos.
Tela com listras coloridas apareceram.
- A nem Junior – reclamou minha vó ao levantar do sofá indo pra cozinha – essa sua geração não sabe mais fazer televisão. Quer um pão de queijo?
Da janela só pude ver o clarão no horizonte se aproximando.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Bom mesmo é comer todo mundo


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Já conversávamos a algumas horas. O encontro dos amigos no bar tinha sido marcado fazia tempo e cada um falava de sua vida e família. Todos casados e alguns com filhos. Um a um foi dizendo sobre suas novidades. Eu os ouvia em meio a gargalhadas e goles de cerveja. Quando enfim chegou minha vez, também completei a brincadeira e contei sobre as últimas aventuras.
- Mas tu não falou do seu “relacionamento aberto” seu picareta – disse um dos meus colegas já com um sorriso malandro acompanhado por um berro de todos os outros na mesa comemorando por mim – tu foi o único sortudo. Fala ai, como é poder comer todo mundo sem medo de apanhar em casa?
Eu ri e respondi;
- Não é bem assim.
- Como não? Deve ser um paraíso – disse outro bebendo já puxando o resto do grupo – a quanto tempo está com ela?
- Cinco anos.
- Olha ai. Da pra ficar a vida toda assim. Quantas você já pegou?
- Além dela, mais uma.
O grito foi unanime; “O QUE?!”.
- Você só pode estar louco. Tu só fudeu com uma até hoje? Pra que então essa merda de “aberto”? Prefiro o meu relacionamento fechado, que já perdi as contas das gostosa que peguei – as gargalhadas saiam novamente no meio do bar cheio – agora você nos deve uma satisfação. Desembucha logo, porque ainda está nessa?
- Não tem mistério, apenas uma mal compreensão de todos. Algumas pessoas acham que relacionamentos abertos são para pessoas imorais e safadas que não conseguem ficar com uma só. Não é bem assim, tudo se baseia mais na sinceridade do que em outra coisa. Se vocês pensarem bem, todos os relacionamentos são abertos...
- Fala isso pra minha mulher – gargalhadas
-  Veja bem, pra ser mais claro; tem uma parte na bíblia que diz que se você só desejar a mulher tu já cometeu traição e adultério. Se levar isso ao pé da letra, todas pessoas do mundo já traíram. É impossível em algum momento da relação você não olhar com desejo pra outra pessoa. Vocês mesmo já disseram que estão comendo todo mundo, e isso não é vergonhoso, é natural, somos animais. A vergonha está em ocultar isso do parceiro. Evidente que já quis ficar com outras mulheres, e em todas as vezes falei isso pra minha mulher, e em todas as vezes depois da conversa e das palavras dela dizendo que eu era livre para fazer o que quiser e que entendia minhas necessidades, simplesmente aquela vontade sumia. Não estou dizendo que não vou ficar com mais ninguém, estou dizendo que ser livre pra mim já é um tesão danado. Nós vamos viver pouco nessa terra, se você não puder ser sincero com a única pessoa que tu escolher ficar, é melhor nem continuar. Transar não é um absurdo, absurdo é ser desleal é trair a confiança de quem te quer bem é não poder ser sincero com quem dorme do teu lado. Relacionamento não envolve só sexo, logo a palavra “aberto” não envolve só transa, envolve várias outras coisas. Trata-se de ser aberto com o outro, mostrar a alma nua e suja.
- Vaaa tomar no cu seu baitola – mais gargalhadas - tu tá falando isso porque com certeza ela num pegou ninguém até hoje.
- Pegou mais que eu.
- Corno manso – os risos não paravam e a cerveja também – sirvo pra isso não.
- Vocês já vivem assim, a diferença é que vocês mentem pra si mesmos, eu não. Talvez nunca vão saber se realmente estão num relacionamento por que são a escolha ou porque são a única opção. A liberdade traz alguns privilégios, e um deles é a fidelidade. Isso que é amor livre, amor verdadeiro e profundo. Que não sofre pelas dores das mentiras rasas e dos pensamentos ocultos.
- Garçom – gritou um de meus amigos – traz mais uma aqui por que o corno filosofo precisa beber mais.
- Garçom – gritei logo depois – traz mais três, porque os corno ignorante estão achando que as mulheres deles são santas.

CALABOCA

Eu conheço todos os seus blefes. Mas pago porque gosto de te ver ganhar. Salta de gata no meu colo Mas eu sei que só quer me arra...