quinta-feira, 20 de julho de 2017

Bilhete - #2UmCisco



     Tudo tinha voltado ao normal e ele agradeceu ao universo por isso.
     Era seu primeiro encontro após aquilo que ele chamava de “A grande Decepção”. Sentado na mesa com sua nova companhia que havia conhecido tinha alguns dias, até que enfim a paz reinava e a vida estava andando.
     Foi difícil, mas após meses de sofrimento ele conseguiu apagar ela de sua casa. O amor tinha ido embora, mas tinha deixado rastros por todos os lados. O travesseiro e fronha que ela havia trago foi o primeiro a pegar fogo.  Cada cômodo da casa guardava uma lembrança dela e ele não podia conviver com aquilo. Jogou tudo fora.  A garrafa de vidro para por água que ela havia improvisado, o narguilé, os cigarros e um maldito pano que ela usava frequentemente na cozinha. Livrou-se do shampoo ainda cheio que ela tinha comprado e até uma toalha azul que nem era dela, mas usava. Jogou fora as fotos, uma calcinha, as cartas e se pudesse jogar fora as blusas que ela usava de camisola, jogaria, mas elas eram boas demais. Da pra aguentar. Não havia mais vestígios daquele “espírito” que o assolou durante tanto tempo.
     Pediu a conta e tirou a carteira para pegar o cartão e finalizar aquele maravilhoso encontro. Sem querer um pedaço de papel dobrado caiu ao tirar o cartão. Pegou e abriu meio confuso. Arregalou os olhos sem conseguir esconder a surpresa. Era um bilhete antigo que não tinha ido junto com as outras tralhas. Ele tinha jogado tudo fora, mas ela ainda estava em todos os lugares.
     - Você acredita em demônios? – perguntou pra sua companhia na mesa – Porque eu começo a crer que o diabo existe e adora me pertubar.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Uma Musicista de Merda - #1UmCisco

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“- A essência da música se baseia basicamente em Pausa e Som - um amigo havia lhe dito uma vez a muito tempo – assim como na vida. O problema é que a gente sempre faz barulho na Pausa ou cala a boca na hora do Som. Isso fode com tudo.”
 Era festa na cidade, onde era certeza que ia encontrar ele. Virou seu copo de cerveja, escondida atrás de uma árvore, pois já tinha visto ele de longe e aquela maldita falta de ar e coração acelerado atacaram novamente. “Agora vai”, pensou.
Desde seus onze anos o frio na barriga, o coração batendo forte e as mãos suando eram pandemônios dentro dela quando ele chegava. E nada havia mudado.
Aos treze a desgraça do frio na barriga, o coração palpitando doido e as mãos encharcadas acompanharam o primeiro beijo, sem língua é claro, quem sabia beijar aos treze? Começaram a namorar, era eterno. Ai acabou.
O Tempo confabulava contra eles desde então. A distância era grande e os encontros muito ocasionais. Ela solteira, ele namorando. Ela namorando, ele solteiro. Vez ou outra olhares se esbarravam em festas. Namoraram na faculdade. Terminaram. Se viram alguns anos depois. As mãos suaram juntas com a dele várias vezes. E lá se vai novamente. Mas não importava, sabiam que um dia iam ficar juntos. Era o destino. – “Eu não vou fuder com tudo” – pensou ela criando coragem pra sair de seu abrigo improvisado – “dessa vez...”
- Oi – disse ele aparecendo de uma vez fazendo ela derramar um pouco da cerveja – preciso falar com você.
- Claro, só deixa eu pegar meu coração que saiu pela boca – brincou desajeitada – eu já ia lá falar com você. É que...
- Vou ser pai. E vou casar – soltou como se fosse mais fácil matar do que torturar.
Sem reação. O coração dela batia a mil, o frio na barriga era glacial e a mão pingava sem ela saber se era o copo de cerveja ou aquele maldito sentimento que já durava quatorze anos. Tudo acabara. Os sonhos, os planos, projetos, carinhos e afetos. Ela sabia ali que não tinha mais como. A cidade ficou silenciosa e o tempo que sempre foi carrasco dos dois se esticou. O mundo tinha parado, deu pra sentir. Ninguém mais caminhava, não havia crianças correndo nem banda tocando ao fundo. O universo entendeu aquele milésimo de segundo como se soubesse ou sentisse a gravidade de sua dor oculta. Aquilo era um “dedinho do pé na quina”. Tinha sido amor, sempre foi. Ia ser por anos. Eles nasceram um para o outro. Mas infelizmente, não seria naquela vida.
- Eei – disse ele passando a mão na frente dos olhos dela – ta ai? Ia me falar algo?
“Sim, ia”.
- Sabia que a música é feita basicamente de Pausa e Som? – deu um gole seco na cerveja – Tipo na vida. E isso é foda, porque eu nunca tive nenhum talento pra música.

Eu saí com uma Ex

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Depois de quase dez anos a encontrei em uma rede social. Conversamos um pouco e decidimos nos encontrar. Uma sorveteria foi o local escolhido, eu sugeri um almoço, mas “conversar mastigando é ruim demais” segundo ela.
Nosso relacionamento durou quase dois anos e deixo ao seu critério descobrir os motivos do término. O tempo que ficamos juntos foi ótimo. Morena dos lábios finos e uma voz suave, na época era uma princesa pedindo cuidados. Já havia visto todas as suas fotos na internet e ela ainda estava linda, o tempo até ajudou um pouco. No caminho para o encontro, me subiu um nervosismo infantil. A ideia de reencontrar alguém que já fez parte da sua vida faz pensamentos ridículos passarem pela nossa mente. Talvez fosse como nos filmes; anos sem se ver e no primeiro olhar o coração queima com uma paixão adormecida e uma nova história se inicia. Confesse, você também pensaria isso.
Cheguei primeiro e fiquei sentado mexendo no celular.
- Oi?!
Levantei a cabeça e disfarcei a surpresa. Estava maravilhosa. Um corpo magro muito bem desenhado, cabelos pretos longos, um perfume doce que eu me lembrava bem e um rosto pouco maquiado com um batom vermelho destacando as ondas de sua boca.
Pedi o sorvete e começamos a conversar. De inicio foi meio constrangedor mas as risadas foram dando espaço a liberdade. Falei sobre os rumos que minha vida tinha tomado até ali e perguntei como ela estava. Secretária, estudando pra concurso e formada em direito. Ainda morava na mesma cidade que nos conhecemos, com sua mãe e padrasto. Falamos do nosso tempo juntos como se fossem outras pessoas. Assuntos delicados eram acompanhados por uma mão no rosto e um “ai meu Deus, que vergonha” ou um “como eu era infantil” e uma risada ridícula no final. Foram quase duas horas de “você ainda continua ridiculamente hilário” e “esse mundo gira mesmo”.
Levei-a até o seu carro, abri a porta e dei um abraço de despedida. Ela entrou e se foi. Não houve beijo, nem olhar magnético. Pássaros não cantaram ou um toque de mãos sem querer ocorreu. Ao contrário do que pensei, não fiquei com borboletas na barriga nem com o peito ardente. Os dois já estavam cansados de relacionamentos rasos e não precisávamos mostrar mais nada um pro outro.
Não acredito que nos veremos novamente, mas o reencontro com o passado revela muito sobre o porquê somos quem somos. Éramos perfeitos um pro outro e graças a Deus a vida nos separou, para sermos perfeitos para nós mesmos.
Quando ela virou a esquina balbuciei;
- Terminar, tambem é um final feliz. Triste, mas feliz.


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Um Hippie Covarde

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- Queria ter essa coragem – já estava a algum tempo conversando com um desses hippies que ficam vendendo pulseiras na rodoviária e a conversa se desenvolveu para além do produto de venda – largar tudo e viver de boa.
- Largar tudo? – ele me perguntou simpático ainda trançando um cordão.
- É. Minha vida uai.
Ele havia acabado de me falar sobre sua vida até ali. Morava em uma casa de fundos numa cidade próxima e tirava todo seu sustento do seu artesanato. “Eterno amante”, como ele mesmo definiu, de outra moça que também compartilhava de seus gostos, os dois viviam bem. Viajou boa parte do país para vender suas pulseiras e não precisava se preocupar com a rotina frenética do mundo capitalista. Pretendia até o fim do ano ter um filho e completar uma família.
- “Tudo” – ele deu um sorriso maroto – mano, você estudou a vida toda até conseguir um emprego que lhe fornecesse um dinheiro relativamente bom para comprar coisas relativamente boas para te dar uma vida relativamente tranquila. Pega trânsito todos os dias, se esgueira entre uma conta e outra para não deixar seu nome sujo pra não atrapalhar a próxima compra dos sonhos e provavelmente trabalha em algum serviço que lhe fornece um nível de estresse interessante. Não preciso te conhecer para falar isso, enquanto eu falo, metade das pessoas que caminham entre a gente estão fazendo exatamente a mesma coisa. Trabalhando, trabalhando, trabalhando. Formigas desesperadas para alimentar sua rainha, seja lá quem ela for. Estabeleceram metas para dar sentido a rotina absurdamente estranha que estão levando. Se formar, casar, ficar rico, luxo, ser feliz, se vestir bem, dar orgulho para família, etc. Todos com a mesma ideia; chegar ao final da vida e ter tranquilidade. – riu – Deuses do tempo. Completamente certos que viverão para sempre e que a Vida ira respeitar seus desejos lhe dando tempo para realizar todos os seus sonhos. Amigo, eu que queria ter essa coragem de largar tudo e viver como vocês, mas sou um completo covarde.

Casou, e se fudeu



O comportamento humano sempre foi muito previsível em várias partes. As fases de um relacionamento são praticamente iguais em todos os casos, tirando alguns detalhes. Nos apaixonamos, não vivemos sem, enjoamos, largamos, queremos de volta e agora mais maduros tentamos desfazer os males do passado. Às vezes a pessoa tem tudo que sempre pedimos e em outras tudo que sempre odiamos. Transamos no quintal ou enquanto se faz o almoço. Um sempre já foi romântico, atencioso, agora nem isso mais. As coisas mudam.
Já me disseram; “Casamento é uma vida”. Isso faz um certo sentido. Afinal, quem de nós não quer dar cabo da vida vez ou outra, e em vários casos até conseguimos? Todos passamos por dias áridos, tristes, mas também por dias apaixonantes como se o céu estivesse mais brilhante. Às vezes estamos dispostos bendizendo as plantas do quintal e em outros, abrir o olho ao acordar é um sacrifício. Casamento é vida mesmo. Esquecemos aquele defeito do nosso parceiro como quem se acostuma com uma mancha na parede ao ponto de nem mais vê-la. Achamos que o romantismo se esfriou, quando na verdade ele esta lá, assim como as noites estreladas que faz tempo que você não para pra apreciar, a culpa não é do céu, basta levantar a cabeça. Casar não é de tudo ruim, assim como também a vida não é.
A responsabilidade não é da vida, ou do casamento, nós que exigimos absurdamente que os dias sejam gloriosos, o que é de uma estranheza tremenda. Afinal, se você não se surpreende mais com o oxigênio ao seu redor que “apenas” te mantém vivo, o que mais é espetacular?
Certo filósofo disse; “Nascer, é começar a morrer”, eu digo; “Casar, é começar a se fuder, mas fuder a dois é sempre mais gostoso”.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Últimos Segundos

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A morte me parece muito mais doce neste momento. Lhe explico.
Estou com o cano de uma pistola dentro da minha boca e o com meu polegar no gatilho. Tomei alguns remédios, mas tudo que me deram foi uma tremenda dor de estômago. Malditos suicidas que não deixam essas partes claras pra gente que vai logo depois deles. Enfim, consegui essa arma com um colega e até então só a tinha para futuros assaltos em minha residência, que digo de passagem não tem nada de valor, então não sei bem porque peguei esta maldita ferramenta de matar, talvez já premeditasse inconscientemente meu fim.  
Nunca pensei que fosse ser um suicida, muito menos que aceitaria a ideia tão tranquilamente. Passei pelas fases comuns de todos eles e cheguei ao estagio final, a falta de vontade de viver. Como todos eles, também  tenho um motivo consideravelmente idiota para por cabo da minha vida e isso me dificulta nesse momento, pois não quero ser lembrado como um idiota. Não deixei recado nem liguei para ninguém, talvez deem minha falta daqui uns dias, quando meu celular parar de receber as ligações e alguém pensar em algo pior, o que também é difícil, pois nunca deixei pistas da minha atual situação.
“Então porque esta dizendo tudo isso?” você deve estar se perguntado. Me faço a mesma pergunta. Não existe um discurso especifico para o que vou fazer. Não há nada de heroico ou certo e meus motivos não são melhores do que os dos milhões de outros que tomaram o mesmo rumo que o meu. Não existe razão, amor, motivo, família, decepção ou qualquer outra coisa que justifique tamanha atitude. Talvez a falta de motivo seja um dos motivos, o que também não seria nada inédito, pois creio que a maioria se vai com as mesmas ladainhas.
O que espero com tal atitude? Esquecimento. O total e belo esquecimento. Aquele esquecimento que trás algumas lembranças na mente das pessoas; “ele era tão bom” ou algo como “nunca vou esquecer de suas piadas”. Talvez não tenha esse retorno, mas seria interessante se fosse o caso. A vida tem sido um pandemônio sem fim, aboleto-me a ideia de que só é possível suportar as dores da alma de uma vida “viva”, negando total realidade assertiva dos males do mundo, e isso meu caro, é de ampla dificuldade para minha pessoa. Meu fim não é melhor nem pior do que o de qualquer outro, é apenas um fim. Um bocado de carne que vai parar de trabalhar incansavelmente para se manter respirando e com saúde.
Enfim, tu que me ouves, de tudo que tenho pra dizer quando se chega ao fim da vida é; não, toda sua vida não passa na sua frente. O que é um tanto decepcionante já que queria relembrar alguns momentos bons para que eu pudesse repensar minha atitude. No demais, não há nada de mágico ou causa maior. É simplesmente o fim como deve ser. Vou agora, na esperança que sirvam pelo menos Pães de Queijo em meu velório.
Celular vibra do meu lado; “Open Bar hoje, borá?!”
Droga, mortos não bebem. Largo a arma na cama, pego a jaqueta e o celular; “To chegando. Hoje eu quero beber até morrer”.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Apenas uma Aventura

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Ele falava empolgado com a boca ainda cheia de comida, o restaurante estava cheio e o barulho era alto, mas não era incômodo.
Já estavam saindo há algum tempo e ela já estava começando a gostar dele. Era simpático, engraçado, os amigos o adoravam e tinha uma maturidade infantil que ela sempre gostou de ver nas pessoas. Ele falava algo sobre o trabalho, ela não estava dando atenção, apenas acenava com a cabeça fingindo que o ouvia e vez ou outra um sorriso esboçava pra participar do devaneio. Na sua mente um único pensamento a assolava; quando ele vai embora e me deixar aqui?
Seus relacionamentos anteriores haviam deixado algumas lembranças ruins em sua mente e ela sentia que este também seria igual. Não dava pra saber.
Enquanto ele cortava um pedaço de filé ela se lembrava de seu ultimo algoz. “Será que o problema sou eu?” pensava. O primeiro foi ainda quando ela era jovem, namorados e inocentes ate que ele chegou um dia dizendo que havia ficado com um ex e que gostava dele. Passou, eram novos. O outro foi um de longo tempo, até que o mundo caiu quando no celular dele estava escrito que ele estava com ela para esquecer o cara da faculdade. Um dos mais recentes talvez foram os mais cruéis. “Uma aventura”, foi como ela foi definida. “Porra, eu amava ele”. Ela simplesmente parou de procurar e de esperar depois desses desafetos. Aceitou que sua existência era apenas passageira para os que ela considerava eternos. Seus beijos e carinhos nunca prenderiam ninguém e não adiantava se acabar na dor, pois no final nada ia mudar e de nada adiantava. A solidão a perseguiu a vida toda e não era agora que a largaria. Aceitou seu carma e seguia em frente.
- Melhor pararmos por aqui – interrompeu seu parceiro.
- Mas eu não terminei a carne, ela esta magnf...
- Estou falando de nós dois – ele engasgou e olhou espantado – você é um cara legal, mas acredite, não sou boa companhia.
Levantou e saiu.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Charles Sophie, esse era seu nome...

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    O observava encostado na porta meio duvidoso sobre nossa conversa até ali.
    - Eu lhe disse várias vezes e por dias incansáveis expus a realidade de nossas vidas. Não foi por falta de aviso nem de companhia que seu fim chegou – falava como se estivesse só – não te culpo. Eu não me ouviria. Confesso que sua visita me causou assombro.
    - Não entendi.
    - Por anos tenho tentado me acomodar na vida que levamos, e com relutância tu negas meus conselhos. Então como se nada tivesse acontecido, vem me pedir auxilio e abrigo. Me questiono  como vão as coisas lá fora – entrou deixando a porta aberta e foi em direção ao seu velho bule de chá – e se verdadeiramente é isso de que precisa - sua paciência e tranquilidade já estavam me incomodando, não era de seu costume – lembro-me de nosso último encontro. Você me deixou aos berros como um louco. Chegou abatido e saiu como um vitorioso com um olhar de que existia alguém em pior estado que tu. Por anos confabulei uma situação – puxou uma cadeira e sentou-se provando seu chá – e se eu tivesse saído por aquela porta? Isso me torturou por dias e dias. A angústia do esquecimento já tomava conta de mim. Porém, um dos piores venenos e remédios para qualquer ser no universo chegou e se revelou, o Tempo. Ele me fez companhia firme e dura incansavelmente e depois de tudo que me fez, tu aparece com esse olhar esperançoso pedindo minha humilde, e negada por anos, contribuição. – deitou sua xícara na mesa e me olhou com uma paz de ódio – pois eu te digo uma coisa seu verme; mesmo que me negues, me assombres, me abandone e me esqueça nesta casa pútrida, eu jamais me calarei, jamais te deixarei em paz, jamais te cegarei para a realidade – deu um tapa violento na xícara e se levantou a me encarar com ira – e sabes por que? Porque tu, tem mais de mim, do que de si mesmo.
    Charles, esse era seu nome. Dor, esse era seu legado. Infelizmente nossas conversas nunca terminavam amigavelmente, porém, desta vez saí e deixei a porta aberta. Espero que o sol lhe apeteça.