segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Seu deus é um imbecil...

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La estava ele, jogado no sofá olhando para o teto como sempre fazia quando chegava do trabalho. Sua rotina era sempre a mesma, para um homem solteiro na faixa dos seus trinta e morando sozinho, o aconchego do seu lar era tudo que ele queria o dia todo.  Sua vida era boa na medida do possível. Ficou ali alguns segundos, quieto, repensando tudo que ocorreu desde que o sol apontou no horizonte, nada demais. Lembrou de um detalhe fútil que vira mais cedo de uma criança pedindo esmola. Respirou fundo, esfregou as duas mãos no rosto preparando-se para levantar e pensou, “Deus podia ajudar essas pessoas”.
Seu pensamento nem terminara de ser finalizado e ouviu a descarga do banheiro logo ao fim do corredor. Levantou num pulo assustado já pensando nas mil maneiras que um assassino poderia ter entrado na sua casa e ter sido abusado o suficiente ao ponto de antes de levar seus pertences, dar uma pausa para suas necessidades básicas. Fez um calculo rápido de quanto tempo demoraria para pegar a faca na gaveta da cozinha. Não ia ser difícil, era uma cozinha americana feita sob medida para seu apartamento onde o acesso a sala era fácil para deixar as pessoas mais próximas nas festas e jantares que sempre planejava.
A porta se abriu e antes que desse tempo, viu um homem bem vestido com calça jeans azul, allstar branco e uma camiseta xadrez dobrada ate os cotovelos secando suas mãos na toalha de rosto azul que ganhara numa festa da firma. Surpreendido, pois não esperava ver tal imagem, ficou ali congelado observando sem saber ao certo se corria ou se oferecia um café.
- Boa noite meu jovem – largou a toalha no chão do corredor e veio com as mãos estendidas e um sorriso no rosto – prazer te conhecer.
Sem saber ao certo o que estava acontecendo ali, estendeu a mão e retribuiu o gesto. Ainda estava parado no centro da sala observando seu visitante um tanto abusado se jogar no sofá de couro e afundar em quatro mil reais de puro descanso, pelo menos era o que a loja havia lhe dito.
- Quem é você? – perguntou olhando ao redor tentando entender a situação.
- Eu? Como assim que sou eu!? – o homem parecia um pouco consternado – isso é lá coisa que se diga para alguém da minha patente? – levantou e foi em direção a cozinha.
- Patente? Você invadiu a minha casa e usou meu... – deu um passo tímido ao ver seu visitante abrir a geladeira e pegar um vinho tinto – você é louco? O que você esta fazendo?
- Meu caro, evitemos os arrodeios – encheu um copo de vinho, bebeu num gole só, suspirou com um prazer inebriante – pode me chamar de Deus. – e voltou a encher o copo.
O de costume não vou contar aqui. É de se saber que na presença do Deus de todo o universo, foi pedido provas materiais da veracidade dos fatos. Questionamentos sobre porque a forma visual tão descolada e todas elas foram dadas. Aquele visitante apresentou provas físicas e visuais suficientes para que sua autenticidade não fosse mais questionada. Após um longo dialogo costumeiro de todos que se deparam diante de Deus, e Ele, ainda com sua garrafa de vinho e sua taça sempre cheia sentou-se no sofá ao lado daquele morador abismado e fascinado com sua presença.
- Não sabia que Deus era tão jovem.
- A sabedoria só se encontra na velhice? E alem do mais só tomei essa forma para facilitar sua recepção.
- Se quisesse facilitar minha recepção poderia ter começado batendo na porta e não dando descarga numa casa onde mora apenas uma pessoa.
- Mas ai eu ia perder o timing - deu uma piscada e bebeu mais uma taça.
- Também não sabia que Deus podia beber.
- Meio irracional partindo do principio que fui Eu que tive a ideia das uvas... e dos canaviais.
- Ok. Esta um pouco confuso. Porque logo na minha casa? Tanta gente melhor e mais merecedora da sua visita, e o Senhor veio usar logo meu banheiro.
- Ora, porque você tinha uma conversa a ser discutida. As pessoas passam horas repetindo algumas palavras, fazem mil sacrifícios, seguem e milhares de rituais e esquecem que quando você quer falar com alguém, basta chamar. Tudo muito simples. – bebeu mais um copo – não as julgo – soltou um riso malicioso – não agora, se é que você me entende.
- Mas eu também não chamei, apenas pensei.
- Será? Vamos fazer o seguinte; vou lhe dar direito a algumas perguntas, evidentemente não darei a resposta pura como são pois você jamais seria capaz de compreender, mas pensaremos juntos num entendimento que mais lhe caiba e ajude sobre seu “apenas pensei”.
- Esta me dizendo que vai me dizer o sentido da vida?
- Ah nem, seja mais criativo – se ajeitou no sofá enchendo o copo – pense bem, você esta diante de Mim, pense em algo que seja útil e verdadeiro para sua vida. Mesmo que eu te diga o sentido da vida e você escreva um livro sobre isso, ninguém vai acreditar e sua noite foi desperdiçada. O que você precisa saber hoje meu caro? Pense sobre o que realmente importa pra você.
Uma pausa. Ele olhava para aquele que mais cedo se apresentara como Deus, bebendo suas infinitas taças de vinho e pensava o que uma pessoa conversaria se o Criador de tudo e todos estivesse tomando vinho, sentado no sofá e vestido como um play boy de classe media alta. Passou a mão no cabelo, se acomodou e decidiu;
- Qual a religião que tem o deus certo? - o olhar de desapontamento  divino era claro – o que foi? É uma pergunta útil para mim pois a resposta vai me dizer como devo proceder para ter uma vida correta.
 - Pergunte isso para um Hindu e sabe qual reposta vai ter? Todas. Todos os deuses tem sua função no cosmo e na vida das pessoas. Você me pergunta isso porque mora num pais colonizado por uma religião que prega um único deus. Refaça esse questionamento para um indiano e ele ira tratar o seu deus como mais um dos dele. Acredito que a pergunta mais lógica é se um único Deus é mil ou se mil é um Deus.
 - Agora entendi quando falou que não ia me dar respostas.
- Parece cliche, mas as respostas sempre foram ditas – bebeu mais uma taça e levantou a garrafa para conferir o restante do conteúdo.
- Tenho água na geladeira se o vinho acabar.
- A piada foi boa, mas ainda tenho o suficiente aqui – encheu novamente o copo.
- Acredito que o álcool não faça efeito não é?!
- É seu terceiro questionamento inútil, já estou começando a me arrepender de ter vindo – colocou os pés na mesa de centro e olhou as horas no relógio.
- Tudo bem, Tudo bem – sentou na ponta do sofá com um ar curioso – lembro-me de ter ido a igreja uma vez, e ouvido que “Deus se arrependeu de ter feito o homem”. Você acabou de falar em arrependimento, mas não é sobre isso exatamente que quero perguntar e sim sobre um sentimento que pode recorrer desse “arrependimento”. Não duvido da sua bondade, evidente, mas e da sua maldade? O Senhor, Deus, também é mal ?
- De acordo com sua definição, sim – não ligou muito para a ideia e virou mais um copo de vinho
- Esta me dizendo então que a culpa de todo mal do mundo é do Senhor?
- Meu jovem, porque o espanto? Pense comigo; fui competente suficiente para criar a complexidade e a infinidade das partículas do universo, e não teria controle sobre a minha criação? Se mil passam fome foi porque passou pela minha total aprovação, se um teve capacidade de matar milhões, foi porque eu autorizei que assim procedesse. Na visão humana, que digo com humildade, é um tanto pequena – bebeu mais uma taça – eu seria cruel, mas sinto desaponta-lo e dizer que grandes poderes requerem grandes sacrifícios.
- Homem aranha.
- Adoro esse filme, os primeiros foram ruins, mas depois ficou melhor – tirou o pé da mesa e encheu a taça novamente – você não tem filhos, mas pense comigo; um pai que proíbe o seu filho de ter contato com certos amigos, ou que o castiga retirando algo que ele gosta, ou que vez em quando não o deixa ir para certos lugares ate que suas notas melhorem ou que suas atitudes dentro de casa se ajeitem – bebeu a taça cheia – é um pai mal? Talvez. Do prisma do pobre filho que tem a limitação da juventude, seu pai é um ser cruel que pouco se importa com sua felicidade. Um patrão de uma grande empresa, a sua por exemplo, que manda embora metade de seus funcionários para que a empresa continue funcionando e em plena saúde financeira, é um patrão insensível?
- São coisas pequenas quando falamos dos males do mundo.
- Pequenas? Quando se trata de maldade não existem miúdos e graúdos. A questão é a quantificação do que os seus olhos veem e o que não veem. Todos os dias, milhares de mini deuses tomam decisões que prejudicam milhares de outras pessoas, e sobre todos eles tenho total controle – virou o resto de vinho na taça e olhou pelo gargalo surpreendido como acabou tão rápido – o que me surpreende ainda é pensarem que poderia existir um deus que estaria observando toda essa maldade do mundo e ficaria indiferente sendo apenas um espectador da sua própria criação. Seu deus é um imbecil, e seu vinho acabou – jogou o resto de vinho da taça no rosto de seu ouvinte.

Acordou num susto, sentado no sofá com uma taça vazia em uma mão e a garrafa de vinho caída perto da mesa de centro. A televisão estava ligada, Peter Parker beijava Marie Jane e se despedia.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Sapato Cafona...

“Estação Arniqueiras. Senhores passageiros, cuidado ao descer”.
Sempre que a porta do metro abre me sinto num filme americano. As pessoas lendo tranquilamente seus livros, um casal se beijando logo no fim do vagão e um homem meio amargurado olhando pela janela. Descer é uma despedida dolorosa pra quem gostaria que a vida fosse tão interessante quanto um longa metragem.
Enquanto dou meu primeiro passo para fora um homem com um pouco mais de pressa me da um empurrão. “Desculpa”.  Tranquilo, sei que a vida exige alguns desesperos.
Enquanto caminho me lembro de uma reportagem que dizia que a mente começa a envelhecer aos 27 anos. Seria verdade? Existe data correta para começarmos a nos fadigar com tudo e com todos? Complicado esses estudos. Sapato bonito a da moça na minha frente, não aparenta alto valor, mas sem duvida seu estilo é interessante. Deve ter a muito tempo, ou as vezes foi só um presente mal dado que ela nem deve ter gostado muito mas na correria da manha não encontrou outro e caiu na casualidade de aceitar aquilo que livremente lhe foi imposto.
A Vida nos da alguns presentes dessa maneira. Nos oferece um sapato cafona porque sabe que querendo ou não uma hora vamos colocar no pé. Esse mundo gira, não se pode reclamar. São 27 solstícios de sapatos cafonas. “Bom dia”, comprimento o gari. O céu esta tão azul, não faz tanto frio para o primeiro dia do Inverno. Algumas poucas nuvens me lembram que já vi dragões e coelhos atacando formigas gigantes enquanto um soldado corria para subir em seu navio. Como as nuvens são criativas. Por trás do manto azul que encobre a terra imagino a galáxia escondida por trás desta cortina brilhante que ate hoje não entendi muito bem como funciona. Bilhões e bilhões de galáxias e estrelas me deixando com a tranquilidade de ser apenas pó estelar. Porque algumas pessoas simplesmente não entendem?
De todas as dificuldades ideológicas que encontrei ate hoje, a maior tem sido deixar claro que ser completamente infeliz é o primeiro passo para a paz e plenitude de um espírito. Claramente as discussões perderam um pouco do sentido. Afinal são varias pessoas fingindo que não estão defendendo seu ponto de vista e no final das contas, sou apenas assombrado pelos tristes mestres que tive, Poe, Augusto dos Anjos, Schopenhauer, aquele do nome estranho que ninguém consegue escrever e vários outros que trouxeram escuridão a minha luz. Tanto faz, não se há muito interesse nisso.
Que borboleta estranha. Acinzentada e escura. Os poemas sempre citam borboletas como majestosas, essa é uma encarnação da feiura dos insetos. Quanto tempo vive uma borboleta?
Um homem passa com seu cachorro do meu lado, minha vontade é abaixar e fazer um cafuné no pequeno animal que transita tão tranquilamente e perguntar o que o guia. O documentário que tinha visto ontem a noite tratava sobre as imigrações dos animais no Globo. Fascinante. Seres que aceitam seu instinto como guia.
Gravidade e magnetismo. Duas palavras que amaldiçoaram meus signos do zodíaco.
Enquanto caminho, já um pouco suado, penso que talvez não seja muito interessante defender alguns pontos de vista. Uma pessoa inteligente não pode continuar com mesmas ideias durante toda a vida. O bilhete no espelho lembrou-me bem do que me traz paz,  “seja feliz na sua infelicidade”. Sapato cafona esse que a vida me deu.
Como anda Silvina, meu primeiro amor? Afinal, ninguém esquece uma paixão da primeira serie. E os amigos que brincavam na rua, a mulher que conversava com minha mãe no portão, a professora bonita, a mancha na parede do quarto da casa branca com a arvore na frente, a lembrança do choro do meu pai sentado no cemitério, a primeira pipa que fiz, a morte do meu primeiro cachorro, a imagem de minha mãe triste porque não tinha biscoito no armário enquanto eu ainda olhava de um pouco abaixo da sua cintura, o sofá em que eu dormia, as surras, as brigas, as musicas, os eternos amigos que nem me lembro direito o nome, as felicidades e as tristezas, as goteiras que me acordavam a noite, tudo isso foi a espetacular e maravilhosa Vida me dando belos sapatos cafonas? A desgraça de uma merda de sapatos cafonas? Acredito que sim e a agradeço. Me servem muito bem para manhãs desesperadas e caminhadas apressadas.
“Bom dia”, comprimento o porteiro.
Não há do que se reclamar. A poesia esta no caos. “Bom dia”, elevador lotado hoje.
O silencio nos elevadores são engraçados, da vontade de dar um grito só pra ver as pessoas pulando levando a mão no peito e adjetivando minha mãe.
“bom dia”, não caiu dessa vez. Talvez na próxima.
Enfim, não há muito segredo nos 27. Não existe formula mágica em nenhuma idade na verdade. Cada um sabe o que faz bem da sua vida e para onde ela vai desandar. Para cada pessoa existe um significado, para cada mente e coração existe uma paixão e um amor. Odeio quando trancam a porta, quase sempre bato a testa nela, ouçam o eterno som da campainha agora. Não se pode esperar muito, nem desejar muito. Tudo é muito rápido e muito curto para preocupações desnecessárias. Apenas tente evitar qualquer...

“Surpreeeesa!!!”

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Carta de um fugitivo...


- Sentencio-o a Felicidade eterna – e bateu o martelo.
Assim foi minha condenação, anos de total e plena Felicidade. Apreendido e punido a sofrer pelas mãos da prisão chamada Liberdade. Fui levado ao pior lugar da qual um prisioneiro já ouviu falar, a Vida.
Meus dias eram incansáveis, horas e horas de total plenitude em tudo que se fazia. Era obrigado a ter um ótimo emprego, uma latente conquista em todas as áreas. Tinha fartura de alimentos, festas maravilhosas e tudo que se pode pensar de bom. Às vezes trocavam e me levavam para uma vida simples – a Felicidade esta nas pequenas coisas – diziam.
Vez em quando, as coisas já me abusavam, e torturavam-me para que pudesse procurar algo que despertasse novamente a tal Felicidade para que meus dias não fossem em vão. Esses sim eram as trevas do cárcere. Por dias já fiquei aprisionado solitário ate que encontrasse algo que me tornasse feliz novamente. Comprava algo melhor, trocava elogios, fazia novos amigos, outro emprego sempre cabia bem e ajudava com todo o resto. Não podia se falar nem ver coisas que atraiam a tristeza – não adianta se preocupar, você não pode fazer nada – e assim fazíamos, era uma tarefa árdua.
Por noites as lembranças das pessoas do lado de fora me viam a tona. Não eram obrigadas a nada, apenas viviam como deviam viver. Sem o fardo e julgamento da obrigação de serem plenas e estarem com seus espíritos animados constantemente. Viviam em paz sem a preocupação de serem necessariamente felizes, algumas ate a conquistavam, porem como sempre é de ser, ela partia novamente, mas sempre deixando seu antigo dono em Paz.
Os dias tem sido infinitos, as necessidades aqui impostas não me servem. Não possuo mais animo nem criatividade para saciar as vontades de meu carrasco. Sendo assim, deixo aqui minha despedida. Cavei meu túnel, escuro, sombrio e duro de se rastejar.

Aos que ficarem, aguardo-vos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Bilhete...


Se veres esses versos
Sabes que não falo pra você
Mas aproveito seu fuxico
Pra confessar e aparecer

Nunca largue um Amor
Pois esse difícil é de se encontrar
Mas não se esqueça que Paixão
Essa esta em todo lugar

E não confunda meu amigo
Deixe de ser insaliente
Uma Paixão é um abrigo
Pra um Amor ficar contente

Julgue como quiser fazer
Como disse não escrevi para você ler
Pois de meu Amor eu cuido bem

E das Paixões que aparecer.

Importante...


“Se você não existisse, quem sentiria sua falta?”. O velho espantado olhava intrigado para sua neta.
“Você com certeza querida, ou não me ama mais?”, brincou.
“Não vovô, fora eu, papai, mamãe, e todo mundo lá de casa, o senhor faria falta pra alguém?”
As palavras eram suaves saindo da boca da criança, mas aos ouvidos pesavam naquele homem que já tanto tinha vivido. “Se eu não existisse, quem sentiria minha falta?” pensou, como dar falta de alguém que nunca esteve presente? A pergunta ficava cada vez mais indigesta. Sim é possível, sofreu. O tempo havia parado, o mundo parecia não girar mais. Aquela criança olhando para os pés, sentado ao seu lado encostando sua cabeça um pouco abaixo de seu peito havia feito uma pergunta simples porem de complexa resposta.
Ele fez um resumo rápido de sua vida, e não conseguia imaginar alguém que daria falta de sua presença. Quem choraria por um sorriso que nunca viu, um conselho que nunca pediu, um abraço que jamais sentiu? Ou aquela ideia genial que mudaria os rumos do mundo, da ciência, tecnologia, saúde, universo e tudo mais, a quem pertenceria?
Lembrou dos amigos, momentos, colegas e pessoas que se esbarrava na rua, quais delas precisariam da minha existência para continuar suas vidas? Ele sabia que não se tratava apenas de uma experiência simples daquelas que animam a gente, tratava-se de mudar completamente o universo de alguém.
Para quem sou importante? Quem me importou para dentro de si durante todos esses anos? Pensou rápido em alguns amores, paixões, mas nenhuma tinha sido grandiosamente surpreendente.
Como pude passar a vida inteira sem ter a plena certeza de que havia realmente transformado a vida de alguém ao ponto dessa pessoa não poder viver sem mim? As perguntas só aumentavam, ele já não sabia quem era a criança e quem era o idoso.
“Eu sei quem sentiria minha falta”, sussurrou a pequena.
O velho fez um movimento suave para olhar melhor para a origem de sua decepção, “Então diga meu doce”.
Buzina.
Sua mãe chegara, já era tarde. A criança pulou do sofá para pegar suas tralhas, beijou sem avô e foi em direção a porta.
“Ei, quem sentiria sua falta?” não perdoou o ignorante.

“Não posso dizer – falou em tom de meia revolta -. Se souber, não serei mais importante pra você vovô, não ira me esperar todos os dias sentindo falta de minha resposta e poderia viver sem minha existência tranquilamente.” Virou as costas e se foi.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Branco...


“Cego?!”. Não acreditei no que via. “O senhor pode acompanhar este homem ate a rodoviária?” perguntou o guarda que me encontrou depois de dar uma curta volta à procura de samaritanos para a boa ação. Evidente que não hesitei em ajudar, afinal, eu o conhecia.



 Infelizmente esse não é um texto que vou me preocupar em ser exato ou poético. Franco ou intimista. Não perca seu valioso tempo lendo as linhas abaixo caso tenha plumas para amaciar.
Nos passos que se seguiram ate o ponto final da nossa caminhada, conversamos e revelei o conhecer de nossa cidade. Falei que lembrava dele nas quadras das quais jogávamos e dos pontos conhecidos da cidade. Nunca em quase dez anos havia me direcionado a palavra a ele nas tardes de jogos. Estava lá, sempre presente, sabia seu nome e onde morava. Às vezes no mesmo time, e às vezes rivais. Mas colegas de quadra são colegas de quadra.
Uma cegueira progressiva o acompanhava já fazia um pouco mais de um ano, “vejo tudo branco meu amigo”, me disse meio triste algumas vezes. Não foram lasers nem cirurgias que conseguiram trazer de volta as imagens de mais de trinta anos de vida. Já havia se acostumado ate, percebi pelo gingado da bengala de ferro tateando o escuro à frente. Falou-me da vida, como estava a rotina e as novas tarefas que custavam ser executadas.
“Entregue, seu baú já ta encostando”. Ele me agradeceu, me abraçou e agradeceu novamente. Despedi-me olhando um pouco para trás, ainda percebendo os agradecimentos perdidos em um olhar de “tudo branco”.
No meu caminho de volta, não sabia mais quem era o cego. Quem via um futuro branco pela frente. Quem à de se levar culpa pelo roubo das cores que a luz nos entrega? Onde se deposita a certeza que no fim vai ficar tudo bem? Em qual esquina os homens assumem sua taxa de arrogância? Se um dia lhe faltar a sã consciência, o que será verdade?
Gostaria de falar sobre Felicidade, dor, vida, vontade. Falar sobre como o mundo é injusto ou como não valorizamos os dias que nos passa. Reclamar da falta de consideração pela natureza e todo o presente que ela nos da. Reclamar do mesquinho ou do hipócrita, do rico e do pobre. Do nobre ou do plebeu. Dizer um pouco sobre a falta de amor ou ate de dinheiro. Sobre política e religião. Sobre as divergências de opiniões não respeitadas ou sobre a fé cega em ideais. Gostaria de falar sobre o valor dos filhos e dos pais, dos amigos e ate dos animais. Mas, Saramago estava certo. Estamos todos cegos. Ou como Drummond já escreveu que cada um tem seu pedaço de verdade. Cada um tem sua bengala da qual fica a tatear o escuro na certeza de que será avisado por qualquer perigo futuro.
Mais de trinta anos de luz e tudo se foi em apenas trezentos e sessenta e cinco dias.

No fim da minha caminhada, sobrou apenas uma pergunta; Quando será minha vez?