terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Minha Raiz...


Tenho sangue grosso, antigo, sangue de legitimo Brasileiro. Ate onde sei, tenho sangue de meu bisavô, Seu Franquilino. Homem tão comedia na sua terra, casado com dona Maria do Carmo da qual não sei como morreu, que mesmo no grito de morte com ataque fulminante, tirou risadas dos que o cercavam achando que era mais uma graça. Pena, não era. Tenho sangue de minha tia Maria de Fátima, tia que nunca vi. Talvez por justiça ou injustiça da vida, morreu aos nove com vermes ate a boca. No sertão, sem muita opção de banquetes ou cousas mais simples, a pequena doce menina comia terra, barro. Descascava a parede para poder descobrir se ainda tinha paladar e enfiava os tijolos secos do sol do Brasil para suprir fome sua e de seus hospedes. Morreu paradoxalmente, garotinha tão doce que morreu com vermes pulando da boca. Tenho sangue do sertão, da Bahia, tenho sangue de cangaço. Cangaceiro foragido, Seu Antonio. Atravessou meio mundo de braquiarao seco, fugindo dos Macaco. Seu Antonio corre grosso nas veias. Cangaceiro bruto, “aposentado”, morreu tuberculoso, na cama, ao lado da maior memória de meu plasma avermelhado, Dona Lio, Inacia Lio. Do sertão pra Bahia, da Bahia pro Cruzeiro, de Cruzeiro pra Planaltina. Em cada passo, vivia pra trabalhar, não trabalhava para viver. Desse sangue tenho alguns contos. Alem de roubar chuchu pra ninhada e colocar na panela cheia de água com pouco feijão em cima da lenha, Dona Inacia era marcada pela vida. Talvez o mesmo calejo que tinha nas mãos de tanto lavar roupa para os nobresinhos da época e de tanto quebrar pedra pra vender por lata mesmo com o pulso rasgado, era o mesmo de seu espírito ou ate mais forte. Saía pra trabalhar e deixava o mais velho, de cinco anos, responsável pelos mais novos. Se voltasse para casa e não visse almoço o pobre coitado mais velho, cinco anos, apanhava pela irresponsabilidade de não ter cozinhado no fogão a lenha. O mesmo pobre, cinco anos, já levou tijolada da mãe enquanto corria para não apanhar, já foi amarrado num pé de arvore de cabeça para baixo em cima de uma vasilha, “se tu comer terra de novo eu te sangro”, nunca mais. Fica a lembrança, Dona Inacia morreu de câncer, porem creio que com a incrível força de vida, o câncer morreu de Dona Inacia.
Tenho sangue sofrido, sangue de lagrimas. Sangue do interior do sertão, do sol quente das fazendas dos coronéis. Sangue que sangrou pra viver, sangue que riu pra morrer. Tenho sangue doce de vermes. Tenho sangue preto de tanto andar no escuro da noite. Tenho sangue de padeiro risonho, de cangaceiro vivido. No meu DNA pulsa a força de viver pra Viver. Corre violentamente a fome do chuchu, do pão realmente DURO, do tijolo rebocado. Vive em min a humildade e o poder de chegar onde quiser, vive a esperança. Tenho sangue Marrom, marrom da cor da terra, mas não de qualquer terra, terra do Brasil. Meu coração bombeia a nostalgia de uma época difícil, de uma infância mais que sofrida. Meu coração bombeia a Honra e Capacidade de carregar dentro de min a força de gente pobre com jeitinho burguês. Em cada veia estufada posso sentir o peso do Sangue Marrom, o peso da força, da ousadia, das palavras, da felicidade infeliz, do calejo das mãos. Posso sentir correr em min a responsabilidade de carregar a historia de um povo que de tudo sofreu, que de tudo viveu. Humildade, força e vontade é herança genética, privilégio de alguns. Tenho Sangue de Inacia Lio.


Á meu tio Severino dos Ramos, tia Doracides e minha mãe Solange Gomes, resultados da semente da luta de minha família.

“O que é o fruto se não o resultado duma semente. O que é a conquista se não a união de uma família”.

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