terça-feira, 15 de agosto de 2017

Saudade

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A Saudade só existe na lembrança.
Não se sente falta daquilo que não se lembra. Se acaso venha eu tentar definir Saudade, seria “sentimento desgraçado que aprisiona sentimentos passados”. Explico.
É de conhecimento comum que entes queridos fazem falta. Um pai falecido fica pra sempre na lembrança de seus filhos ou esposa. Caso tenha sido execrável, apenas lembrança, caso contrário, Saudade. Lembra-se dos sorrisos, beijos, afagos, piadas e até dos improváveis defeitos como os arrotos a mesa ou os roncos na madrugada. Um amontoado de sentimentos se resumem quando a lembrança chega e desperta uma tristeza, a maldita Saudade. Aquela vontade de se querer ter o objeto amado, de desejar-se verdadeiramente, mas ser impossibilitado de tê-lo. A isso chamamos Saudade. Alguns dirão; “mas também se sente saudade de coisas vivas e distantes”. A esses digo: Concordo! Outro motivo pela qual esse maldito sentimento deve ser jogado nas profundezas do oceano.
Qual a função de se querer aquilo que não se pode ter? Seja vivo ou morto, perto ou longe, desejar e não possuir é em outras palavras estar preso aos pés e mãos a uma rocha com grilhões pesados e na outra ponta da sala, observar um prato delicioso acompanhado de uma maravilhosa bebida para saciar a fome e sede de seu pobre prisioneiro.
Diga-me que é bom sentir Saudade e lhe direi que tu é mais sádico que eu. Reflita; ao lembrar de bons momentos passados, as ideias vão se misturando numa mixórdia de sentimentos que não voltarão mais. Não existe saudade sem dor. Sempre que refletir sobre o passado maravilhoso de algo ou alguém, sua pobre alma ira refletir de volta uma tristeza e uma dor singela. Curta, doce e digo até prazerosa, porém ainda será dor.
E de todos os defeitos, esta maldita carrega uma característica que nenhum outro sentimento possui; Imortalidade. Não importa o que se faça, se um dia a Saudade nascer, essa jamais morrerá. Um vírus que se alimenta de passado e alegrias. Agarrada aos pés da lembrança, ela aguarda seu hospedeiro fielmente ser aclamado e ressurge em todo seu esplendor para brilhar com toda sua escuridão.
Digo por fim, que maldigo esse pérfido sentimento apenas por um motivo; Se há uma habitante em minha alma que se deita e desperta comigo diariamente e que o conheço bem, essa é a infame e deliciosa Saudade.

Realidade


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Tudo bem?

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     Entrei no elevador e saudei com educação o desconhecido que já ocupava o espaço.
     - Bom dia. Tudo bem?
     - Não, não esta.
     - Como? – esse tipo de resposta não é comum.
     - Você perguntou se estou bem. Não, não estou. Ou essa só foi mais uma pergunta ridícula para tentar ser educado?
     - Não. Digo, sim. É que... – ele continuava tranquilo com sua meia idade olhando os números mudarem acima da porta.
     - Não se preocupe. Uma pergunta, duas intenções. Respondendo de acordo com a primeira intenção, a de ser educado; Sim, tudo bem. Obrigado. Respondendo a segunda intenção, a de realmente querer saber como um desconhecido esta a passar a vida e se tudo esta tranquilo; Não, a vida é um inferno, o diabo tirou férias e os demônios estão sem saber quais os turnos para me tirar a paz e por consequência, me perturbam constantemente para garantir o serviço. Estou em meia idade e ninguém me avisou que ser adulto se baseava em pagar boletos e garantir que se tenha uma morte aparentemente tranquila com dinheiro suficiente para poder se pagar um buraco no cemitério. Quando mais novo tive um grande amor que nunca esqueci. Hoje ela esta casada com outro e não há um dia se quer que isso não me aflija. A noite, minha mente se acende como um farol me privando de um bom e velho sono, garantindo assim minha incapacidade de realizar tarefas diurnas fazendo com que eu perdesse meu emprego por ser incapaz de entregar relatórios. O emprego era uma bosta, mas agora não sei de onde vou tirar dinheiro para pagar o buraco de minha morte. Minha única companhia era um cão que faleceu faz três dias de tão velho que era e tive que joga-lo na lixeira porque não existe um terreno baldio nessa maldita cidade onde eu pudesse enterrá-lo. Quinze anos de amizade e no fim o joguei na lixeira. – o elevador parou – Esse é meu andar. Tomara que o lixeiro passe quando eu morrer. Bom dia.
     Saiu dando espaço para uma senhora entrar.
     - Bom dia. Tudo bem? – me perguntou.
     Fingi que não ouvi.

Um simples pedido...

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    Não quero que meu filho seja gay.
    Muito menos travesti, viado, simpatizante, bi, homossexual ou sei lá o que. Morreria de vergonha.
    Sofreria muito mais se ele fosse feminista, machista, homofóbico, comunista, capitalista, coxinha ou um petista ridículo.
    Teria asco se me dissesse que se filiou ao PMDB, PTdoB, PT, PCdoB e que agora é fã do bolsomito ou que quer mais um esquerda para presidente.
    E o pior, se virasse católico apostólico romano, budista, evangélico, ateu, mulçumano, hindu, espírita ou Deus me livre, macumbeiro.
    Peço ao Universo para que meu filho nunca precise se categorizar para se encaixar aos ideais montados para discutir quem é melhor ou pior que quem. Que não precise de classificação para defender uma ideologia e que apenas siga aquilo que é bom para si e para o mundo.  Que em vez dele tomar partido, ele una as partes. Que ele entenda que definir as pessoas por classe, etnia ou opção sexual é uma atitude irracional e desprezível. Que ele aprenda que ser humano é apenas ser e que diferentes também são iguais.
    Quando Móises perguntou qual o nome de Deus, ele apenas respondeu “Eu Sou”. Vamos aprender com o Criador do universo, chega de parvas classificações. Vamos apenas Ser, ser Humanos. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Bilhete - #2UmCisco



     Tudo tinha voltado ao normal e ele agradeceu ao universo por isso.
     Era seu primeiro encontro após aquilo que ele chamava de “A grande Decepção”. Sentado na mesa com sua nova companhia que havia conhecido tinha alguns dias, até que enfim a paz reinava e a vida estava andando.
     Foi difícil, mas após meses de sofrimento ele conseguiu apagar ela de sua casa. O amor tinha ido embora, mas tinha deixado rastros por todos os lados. O travesseiro e fronha que ela havia trago foi o primeiro a pegar fogo.  Cada cômodo da casa guardava uma lembrança dela e ele não podia conviver com aquilo. Jogou tudo fora.  A garrafa de vidro para por água que ela havia improvisado, o narguilé, os cigarros e um maldito pano que ela usava frequentemente na cozinha. Livrou-se do shampoo ainda cheio que ela tinha comprado e até uma toalha azul que nem era dela, mas usava. Jogou fora as fotos, uma calcinha, as cartas e se pudesse jogar fora as blusas que ela usava de camisola, jogaria, mas elas eram boas demais. Da pra aguentar. Não havia mais vestígios daquele “espírito” que o assolou durante tanto tempo.
     Pediu a conta e tirou a carteira para pegar o cartão e finalizar aquele maravilhoso encontro. Sem querer um pedaço de papel dobrado caiu ao tirar o cartão. Pegou e abriu meio confuso. Arregalou os olhos sem conseguir esconder a surpresa. Era um bilhete antigo que não tinha ido junto com as outras tralhas. Ele tinha jogado tudo fora, mas ela ainda estava em todos os lugares.
     - Você acredita em demônios? – perguntou pra sua companhia na mesa – Porque eu começo a crer que o diabo existe e adora me pertubar.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Uma Musicista de Merda - #1UmCisco

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“- A essência da música se baseia basicamente em Pausa e Som - um amigo havia lhe dito uma vez a muito tempo – assim como na vida. O problema é que a gente sempre faz barulho na Pausa ou cala a boca na hora do Som. Isso fode com tudo.”
 Era festa na cidade, onde era certeza que ia encontrar ele. Virou seu copo de cerveja, escondida atrás de uma árvore, pois já tinha visto ele de longe e aquela maldita falta de ar e coração acelerado atacaram novamente. “Agora vai”, pensou.
Desde seus onze anos o frio na barriga, o coração batendo forte e as mãos suando eram pandemônios dentro dela quando ele chegava. E nada havia mudado.
Aos treze a desgraça do frio na barriga, o coração palpitando doido e as mãos encharcadas acompanharam o primeiro beijo, sem língua é claro, quem sabia beijar aos treze? Começaram a namorar, era eterno. Ai acabou.
O Tempo confabulava contra eles desde então. A distância era grande e os encontros muito ocasionais. Ela solteira, ele namorando. Ela namorando, ele solteiro. Vez ou outra olhares se esbarravam em festas. Namoraram na faculdade. Terminaram. Se viram alguns anos depois. As mãos suaram juntas com a dele várias vezes. E lá se vai novamente. Mas não importava, sabiam que um dia iam ficar juntos. Era o destino. – “Eu não vou fuder com tudo” – pensou ela criando coragem pra sair de seu abrigo improvisado – “dessa vez...”
- Oi – disse ele aparecendo de uma vez fazendo ela derramar um pouco da cerveja – preciso falar com você.
- Claro, só deixa eu pegar meu coração que saiu pela boca – brincou desajeitada – eu já ia lá falar com você. É que...
- Vou ser pai. E vou casar – soltou como se fosse mais fácil matar do que torturar.
Sem reação. O coração dela batia a mil, o frio na barriga era glacial e a mão pingava sem ela saber se era o copo de cerveja ou aquele maldito sentimento que já durava quatorze anos. Tudo acabara. Os sonhos, os planos, projetos, carinhos e afetos. Ela sabia ali que não tinha mais como. A cidade ficou silenciosa e o tempo que sempre foi carrasco dos dois se esticou. O mundo tinha parado, deu pra sentir. Ninguém mais caminhava, não havia crianças correndo nem banda tocando ao fundo. O universo entendeu aquele milésimo de segundo como se soubesse ou sentisse a gravidade de sua dor oculta. Aquilo era um “dedinho do pé na quina”. Tinha sido amor, sempre foi. Ia ser por anos. Eles nasceram um para o outro. Mas infelizmente, não seria naquela vida.
- Eei – disse ele passando a mão na frente dos olhos dela – ta ai? Ia me falar algo?
“Sim, ia”.
- Sabia que a música é feita basicamente de Pausa e Som? – deu um gole seco na cerveja – Tipo na vida. E isso é foda, porque eu nunca tive nenhum talento pra música.

Eu saí com uma Ex

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Depois de quase dez anos a encontrei em uma rede social. Conversamos um pouco e decidimos nos encontrar. Uma sorveteria foi o local escolhido, eu sugeri um almoço, mas “conversar mastigando é ruim demais” segundo ela.
Nosso relacionamento durou quase dois anos e deixo ao seu critério descobrir os motivos do término. O tempo que ficamos juntos foi ótimo. Morena dos lábios finos e uma voz suave, na época era uma princesa pedindo cuidados. Já havia visto todas as suas fotos na internet e ela ainda estava linda, o tempo até ajudou um pouco. No caminho para o encontro, me subiu um nervosismo infantil. A ideia de reencontrar alguém que já fez parte da sua vida faz pensamentos ridículos passarem pela nossa mente. Talvez fosse como nos filmes; anos sem se ver e no primeiro olhar o coração queima com uma paixão adormecida e uma nova história se inicia. Confesse, você também pensaria isso.
Cheguei primeiro e fiquei sentado mexendo no celular.
- Oi?!
Levantei a cabeça e disfarcei a surpresa. Estava maravilhosa. Um corpo magro muito bem desenhado, cabelos pretos longos, um perfume doce que eu me lembrava bem e um rosto pouco maquiado com um batom vermelho destacando as ondas de sua boca.
Pedi o sorvete e começamos a conversar. De inicio foi meio constrangedor mas as risadas foram dando espaço a liberdade. Falei sobre os rumos que minha vida tinha tomado até ali e perguntei como ela estava. Secretária, estudando pra concurso e formada em direito. Ainda morava na mesma cidade que nos conhecemos, com sua mãe e padrasto. Falamos do nosso tempo juntos como se fossem outras pessoas. Assuntos delicados eram acompanhados por uma mão no rosto e um “ai meu Deus, que vergonha” ou um “como eu era infantil” e uma risada ridícula no final. Foram quase duas horas de “você ainda continua ridiculamente hilário” e “esse mundo gira mesmo”.
Levei-a até o seu carro, abri a porta e dei um abraço de despedida. Ela entrou e se foi. Não houve beijo, nem olhar magnético. Pássaros não cantaram ou um toque de mãos sem querer ocorreu. Ao contrário do que pensei, não fiquei com borboletas na barriga nem com o peito ardente. Os dois já estavam cansados de relacionamentos rasos e não precisávamos mostrar mais nada um pro outro.
Não acredito que nos veremos novamente, mas o reencontro com o passado revela muito sobre o porquê somos quem somos. Éramos perfeitos um pro outro e graças a Deus a vida nos separou, para sermos perfeitos para nós mesmos.
Quando ela virou a esquina balbuciei;
- Terminar, tambem é um final feliz. Triste, mas feliz.


Ponto de vista

“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o ...