sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ponto de vista



“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o mesmo sem perder a atenção - e isso é diferente. Não existe essa de viajar no tempo. Só dá pra observar.”  

Ele disse algumas coisas sobre o passado se comunicar com o futuro, mas nenhum podia fazer isso com o presente, tipo essas leis trismegistras, mas diferente. O caso era contado com tanto detalhe que parecia muita mentira pra ser verdade, ao ponto de você não conseguir duvidar que aconteceu, tipo história de alienígena. E só piorava. 

Dizia que conseguia observar a matéria no seu estado mínimo, ver outros espectros de luz, assistir cenas do passado e às vezes até conseguia contato com o futuro. Quando perguntei como essa façanha semi espiritualista era feita, esperando algo como viagem astral ou substâncias levemente alucinógenas, a resposta me pegou como um leve soquinho no queixo; “Eu durmo.” 

Qualquer um levantaria da mesa e iria embora ou até mudaria de assunto, mas sempre foi de meu interesse homo sapiens com essa estrutura mental. Até aqui, já ouvi tudo que é tipo de história. Mitos, fatos históricos, religiões, seitas, fofocas e etcetera. Diante de tantas verdades, minha miopia crônica sempre me impediu de enxergar com clareza todas elas, me obrigando sempre a duvidar do que ouvia ou experiênciava. Também aprendi isso em outra conversa absurdista de butiquin. O único fator que sempre permaneceu na equação foi o Ser Humano. De tantos relatos completamente extremos sobre todos os casos e lamentações da existência, a única figura que continua sendo permanente, é o humano que a diz. Indivíduos carregados de história, genética, contexto, experiências e sujeitos a regras universais do universo, lutando para sobreviver e continuar dando sentido a uma existência bela de ser vivida, mas, lamentavelmente ou não, finita. Um coletivo global completamente conectado por mentes que procuram constantemente conexão com tudo ao seu redor tipo um neurônio procurando outros pares, como se estivessem tentando compensar a maldição  atômica de nunca poder tocar o mundo ao seu redor.

“... mas eu tenho um manual de regras - continuou - sempre que eu viajo eu sigo essas regras e se eu não me trair sempre vou ter passe livre. Então não importa o que aconteça, a única forma de continuar controlando tudo é estar no Presente, nós somos a torre de comando…”.

Um brinde às meias verdades.


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