quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Invasão Alienígena (ou quase isso)


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- Desculpe, mas acredito que não entendemos.
- Qual parte?
- Basicamente, tudo.
A sede da ONU estava um alvoroço desde que os seres de outro planeta chegaram com suas espaçonaves invadindo os céus. De início acreditava-se ser uma invasão, mas aos poucos os diálogos foram se alinhando e os motivos da visita foram ficando claros. Neste momento as maiores autoridades do mundo se reunião com os seres de outro planeta para falar sobre sua inesperada chegada.
- Como assim tudo – disse uma das autoridades das Nações Unidas – mostramos perfeitamente como funciona nosso mundo.
- Funciona? – questionou um dos visitantes. Eles realmente se pareciam com as fabulas; pés, mãos, olhos grandes e gestos limpos. Calmos e pacientes – em nosso planeta esta palavra tem um conceito diferente, acredito.
- Então nos diga – disse um dos presidentes da América do Sul.
- Nos perdoem por, talvez, sermos tão ignorantes diante de suas leis e princípios. Mas me corrija caso estejamos errados; o conceito de “funciona” para vocês é que a máquina operacional do mundo continua a girar apesar das dificuldades. Dificuldades essas que vocês mesmos criaram e as mantém mesmo tendo em mãos total solução para esses males. Delimitaram terras vastas para depois vender para seus nativos. Criaram sistemas de castas, quando não explícitos, ocultos por um conjunto de “etiquetas” e regras determinando quem é o melhor ou pior. Subjugaram seus iguais durantes séculos apenas por não terem cores parecidas ou terem costumes diferentes de vocês. Trocam alimento por um papel com um número ou algumas, como vocês mesmo chamam, moedas. Alinhando assim os que possuem menos destes itens, em situações precárias de saúde, moradia, alimento dentro outros males. Por alguns motivos que ainda não entendemos, sua espécie trava guerras sangrentas com irmãos de pátria ou de terras diferentes. Crescem como uma praga descontrolada consumindo tudo que veem pela frente. Matam, saqueiam, abusam do poder que acham que possuem. Sua esplendida criatividade para realizar feitos maléficos para seus próximos é de uma admiração espantosa. Nos desculpem se a palavra “funciona” não funciona bem até aqui. Vocês nos disseram sobre seus avanços tecnológicos e crescimento evolutivo, digo porém a vós, como definem crescimento? Menosprezar alguém que não se encaixa no padrão hierárquico ou financeiro de sua classe jogando-o aos animais e as margens é realmente necessário para que tudo isso “cresça”? vocês criaram problemas com o clima, com a fauna e flora deste planeta com um discurso moralista de ganho e evolução, deixando sempre aqueles que eram para ser os privilegiados por esses avanços, a mercê de qualquer possibilidade de futuro. Dinheiro, poder, ilusão.
- Não é bem assim... – gritou uma voz no silencio do salão principal.
- Não?! Então devo admitir que nossa espécie não está evoluída o suficiente para entender os Seres Humanos. Centenas de espécies foram extintas graças a uma espécie de praga que vocês carregam, que posso aqui chamar de ganância. Uma tentativa desesperada por acumular coisas que não poderão levar após o fim de suas curtas vidas, vidas essas que menosprezam com tamanha ética. Vocês criam a doença e depois se regozijam com a cura, quando na verdade um simples pensamento logico poderia evitar toda pandemia. Novamente peço desculpas. Poderia ficar algum tempo falando sobre várias outras explanações que não nos fazem sentido. Sentimentos, doenças, fome, dinheiro, razão, vida, família, tecnologia, morte – fez uma pausa e olhou ao redor – porém percebo a cada instante que estão certos demais para vislumbrar vossas decadências.
Alguns olhares temerosos foram trocados.
- Então o que vieram fazer aqui? – perguntou o presidente da ONU.
- Sua Terra é rica e poderosa. Na crença que poderíamos nos aliar a sua espécie traçamos tal viagem. Mas em acordo com meus iguais, decidimos partir e voltar num futuro próximo.
- Por que essa decisão?

- Somos seres pacíficos – respondeu se retirando com todos os outros seres – não travamos guerras. Porém, pelo caminhar lógico de seu sistema que “funciona” tão bem, poderemos voltar em alguns anos, na certeza que tudo isso que vocês lutaram e defenderam como sendo o certo a se fazer maquiando essa vontade insaciável de poder, estará reduzido a pó junto com seus corpos e poderemos iniciar uma nova colônia, com bases firmes e reais. E novamente nos perdoem pelo incômodo, mas antes de irmos, poderíamos falar com alguns golfinhos? Seus cérebros evoluídos têm muito a nos ensinar.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Ânimo, do latim, Alma

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A gente só cansa as vezes.

O sol acordou e a cama não nos larga. A noite foi mal dormida e a insônia é sempre a melhor companhia. Sair não é mais tão interessante e as discursões perderam seu brilho.

Desista-se dos sonhos, desejos, vontades e a única coisa que queremos é um lugar de silêncio pra tomar um chá.

A gente só cansa as vezes.

Cansamos do trabalho, das pessoas, da família, cansa-se da vida. Perde-se a tara pra sacanagem, pro álcool e outros prazeres. Cansamos de dar justificativas, de falar do amor, de rir das piadas e de tudo que antes era pulsão na nossa alma.

A gente só cansa.

E nem é mais tão sofrido, porque cansamos também do choro notívago, da auto crítica, de buscar soluções e das tristezas comuns. Cansamos de ficar cansados. Cansamos até de tentar morrer depois de tantos ensaios elucubrados.

A gente só cansa as vezes.

Cansamos de nós e da dura impossibilidade de poder descansar.

Cansamos de não poder ficar cansados. De estar sempre dispostos. Simplesmente cansamos.

A gente só cansa.

Cansamos do descanso e do cansaço. Nada demais. A gente só cansa as vezes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Cinema, cafuné e um sexo selvagem. Porque o Amor me da ranço

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Um cigarro de maconha, uma mancha de vinho no braço do sofá e a televisão ligada na netflix. Ozark, série da vez. Assim eram suas noites já faziam algum tempo.
Vez ou outra sempre tinha seus contatinhos prontos pra afagar seus desejos e bater um papo nos botecos das esquinas da Asa Sul em Brasília. Tinha até um em especial que era o que ela mais gostava. Mas ele se perdeu, “porque você veio com esse papo torto?” relembrou.
     Haviam se conhecido num aplicativo e se encontrado no Pátio Brasil perto do que antes era a velha fonte, “não sei porque tiraram ela daqui”. Foi uma noite “xuxu beleza”, como ele mesmo havia dito enquanto comia o resto da comida do Panelinhas na sua frente. Ela riu, ele tinha sido muito simpático e engraçado.
    Cinema, lanches, shows, bares, sexo e mais sexo foi dali em diante. Nasceram um para o outro. Dick e Jane, a dupla perfeita. Ela adorava seus papos. Astrologia, politica, filosofia, trabalho, teletumbies e até aquele desenho estranho com um menino e um cachorro amarelo. Ele era fã de Caetano mas dormia ao som de Slipknot. Vez ou outra entrava na Saraiva só para passar os dedos nos livros pra ter aquela sensação deles os pertencer. Ela adorava suas estranhezas.
    “Eu to gostando de você”, assim que ele fudeu com tudo. 
    “Qual o problema das pessoas?”, pensou. Porque tudo tem que acabar em namoro, casamento, filhos, noivado? Depois de algum tempo tudo que ela queria era alguém legal pra poder curtir os dias estranhos. Nada de possíveis namoros ou coisas sérias, só uma pessoa com seu mesmo animo. Achava que ele era assim, mas não foi.
     Celular vibrou. Era ele.
     “PORQUE SUMIU? TE FIZ ALGO? GOSTO DE VOCE”
Ela respondeu;
     “Você é legal, mas estamos em vibes diferentes”. Pauzinhos azuis sem resposta.
     Deu uma tragada no cigarro. Prendeu. Soltou. “Deus me livre do amor. Amor me da ranço.”

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

18/08/2017

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Hoje faz 24 meses.
A vida é estranhamente estranha.
Eu escrevi e apaguei várias ideias aqui pensando num texto legal pra dizer como esse muleke com cara de velho é especial. Desisti de todas.
Se você já encontrou esse ser, com certeza recebeu um sorriso seguido de um "Oi" simpático e amigo. Talvez ele tenha estendido os braços pra te abraçar sem te conhecer e um provável polegar levantado sinalizou um joinha expressivo.
Ele não é o mais adiantado da sua idade, não fala muito bem e tá longe de ser um prodígio. Mas eu já vi um corredor inteiro de um hospital pedir seus "tchaus" enquanto ele ia de um a um com seu sorriso faceiro alegrar algumas almas doentes. Já fez um elevador lotado de gente rir com suas gracinhas enquanto alguns de nós nem "bom dia" conseguimos dar.
Ele não é especial. Nem pior nem melhor.
Mas tem algo que sempre vejo nesse olhar remelento. Vejo a Felicidade. A pura e simples Felicidade. A real Felicidade. A crença que todos são bons e tudo vai ficar bem. Que tudo se resolve com um "Oi" e um abraço. Que é possível ter paz em um mundo de trevas.

E eu, mergulhado em minha completa infelicidade, encontrei luz onde jamais imaginei. Em umas fraldas sujas e num par de olhos sorridentes.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Saudade

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A Saudade só existe na lembrança.
Não se sente falta daquilo que não se lembra. Se acaso venha eu tentar definir Saudade, seria “sentimento desgraçado que aprisiona sentimentos passados”. Explico.
É de conhecimento comum que entes queridos fazem falta. Um pai falecido fica pra sempre na lembrança de seus filhos ou esposa. Caso tenha sido execrável, apenas lembrança, caso contrário, Saudade. Lembra-se dos sorrisos, beijos, afagos, piadas e até dos improváveis defeitos como os arrotos a mesa ou os roncos na madrugada. Um amontoado de sentimentos se resumem quando a lembrança chega e desperta uma tristeza, a maldita Saudade. Aquela vontade de se querer ter o objeto amado, de desejar-se verdadeiramente, mas ser impossibilitado de tê-lo. A isso chamamos Saudade. Alguns dirão; “mas também se sente saudade de coisas vivas e distantes”. A esses digo: Concordo! Outro motivo pela qual esse maldito sentimento deve ser jogado nas profundezas do oceano.
Qual a função de se querer aquilo que não se pode ter? Seja vivo ou morto, perto ou longe, desejar e não possuir é em outras palavras estar preso aos pés e mãos a uma rocha com grilhões pesados e na outra ponta da sala, observar um prato delicioso acompanhado de uma maravilhosa bebida para saciar a fome e sede de seu pobre prisioneiro.
Diga-me que é bom sentir Saudade e lhe direi que tu é mais sádico que eu. Reflita; ao lembrar de bons momentos passados, as ideias vão se misturando numa mixórdia de sentimentos que não voltarão mais. Não existe saudade sem dor. Sempre que refletir sobre o passado maravilhoso de algo ou alguém, sua pobre alma ira refletir de volta uma tristeza e uma dor singela. Curta, doce e digo até prazerosa, porém ainda será dor.
E de todos os defeitos, esta maldita carrega uma característica que nenhum outro sentimento possui; Imortalidade. Não importa o que se faça, se um dia a Saudade nascer, essa jamais morrerá. Um vírus que se alimenta de passado e alegrias. Agarrada aos pés da lembrança, ela aguarda seu hospedeiro fielmente ser aclamado e ressurge em todo seu esplendor para brilhar com toda sua escuridão.
Digo por fim, que maldigo esse pérfido sentimento apenas por um motivo; Se há uma habitante em minha alma que se deita e desperta comigo diariamente e que o conheço bem, essa é a infame e deliciosa Saudade.

Realidade


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Tudo bem?

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     Entrei no elevador e saudei com educação o desconhecido que já ocupava o espaço.
     - Bom dia. Tudo bem?
     - Não, não esta.
     - Como? – esse tipo de resposta não é comum.
     - Você perguntou se estou bem. Não, não estou. Ou essa só foi mais uma pergunta ridícula para tentar ser educado?
     - Não. Digo, sim. É que... – ele continuava tranquilo com sua meia idade olhando os números mudarem acima da porta.
     - Não se preocupe. Uma pergunta, duas intenções. Respondendo de acordo com a primeira intenção, a de ser educado; Sim, tudo bem. Obrigado. Respondendo a segunda intenção, a de realmente querer saber como um desconhecido esta a passar a vida e se tudo esta tranquilo; Não, a vida é um inferno, o diabo tirou férias e os demônios estão sem saber quais os turnos para me tirar a paz e por consequência, me perturbam constantemente para garantir o serviço. Estou em meia idade e ninguém me avisou que ser adulto se baseava em pagar boletos e garantir que se tenha uma morte aparentemente tranquila com dinheiro suficiente para poder se pagar um buraco no cemitério. Quando mais novo tive um grande amor que nunca esqueci. Hoje ela esta casada com outro e não há um dia se quer que isso não me aflija. A noite, minha mente se acende como um farol me privando de um bom e velho sono, garantindo assim minha incapacidade de realizar tarefas diurnas fazendo com que eu perdesse meu emprego por ser incapaz de entregar relatórios. O emprego era uma bosta, mas agora não sei de onde vou tirar dinheiro para pagar o buraco de minha morte. Minha única companhia era um cão que faleceu faz três dias de tão velho que era e tive que joga-lo na lixeira porque não existe um terreno baldio nessa maldita cidade onde eu pudesse enterrá-lo. Quinze anos de amizade e no fim o joguei na lixeira. – o elevador parou – Esse é meu andar. Tomara que o lixeiro passe quando eu morrer. Bom dia.
     Saiu dando espaço para uma senhora entrar.
     - Bom dia. Tudo bem? – me perguntou.
     Fingi que não ouvi.

Ponto de vista

“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o ...