segunda-feira, 17 de julho de 2017

Um Hippie Covarde

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- Queria ter essa coragem – já estava a algum tempo conversando com um desses hippies que ficam vendendo pulseiras na rodoviária e a conversa se desenvolveu para além do produto de venda – largar tudo e viver de boa.
- Largar tudo? – ele me perguntou simpático ainda trançando um cordão.
- É. Minha vida uai.
Ele havia acabado de me falar sobre sua vida até ali. Morava em uma casa de fundos numa cidade próxima e tirava todo seu sustento do seu artesanato. “Eterno amante”, como ele mesmo definiu, de outra moça que também compartilhava de seus gostos, os dois viviam bem. Viajou boa parte do país para vender suas pulseiras e não precisava se preocupar com a rotina frenética do mundo capitalista. Pretendia até o fim do ano ter um filho e completar uma família.
- “Tudo” – ele deu um sorriso maroto – mano, você estudou a vida toda até conseguir um emprego que lhe fornecesse um dinheiro relativamente bom para comprar coisas relativamente boas para te dar uma vida relativamente tranquila. Pega trânsito todos os dias, se esgueira entre uma conta e outra para não deixar seu nome sujo pra não atrapalhar a próxima compra dos sonhos e provavelmente trabalha em algum serviço que lhe fornece um nível de estresse interessante. Não preciso te conhecer para falar isso, enquanto eu falo, metade das pessoas que caminham entre a gente estão fazendo exatamente a mesma coisa. Trabalhando, trabalhando, trabalhando. Formigas desesperadas para alimentar sua rainha, seja lá quem ela for. Estabeleceram metas para dar sentido a rotina absurdamente estranha que estão levando. Se formar, casar, ficar rico, luxo, ser feliz, se vestir bem, dar orgulho para família, etc. Todos com a mesma ideia; chegar ao final da vida e ter tranquilidade. – riu – Deuses do tempo. Completamente certos que viverão para sempre e que a Vida ira respeitar seus desejos lhe dando tempo para realizar todos os seus sonhos. Amigo, eu que queria ter essa coragem de largar tudo e viver como vocês, mas sou um completo covarde.

Casou, e se fudeu



O comportamento humano sempre foi muito previsível em várias partes. As fases de um relacionamento são praticamente iguais em todos os casos, tirando alguns detalhes. Nos apaixonamos, não vivemos sem, enjoamos, largamos, queremos de volta e agora mais maduros tentamos desfazer os males do passado. Às vezes a pessoa tem tudo que sempre pedimos e em outras tudo que sempre odiamos. Transamos no quintal ou enquanto se faz o almoço. Um sempre já foi romântico, atencioso, agora nem isso mais. As coisas mudam.
Já me disseram; “Casamento é uma vida”. Isso faz um certo sentido. Afinal, quem de nós não quer dar cabo da vida vez ou outra, e em vários casos até conseguimos? Todos passamos por dias áridos, tristes, mas também por dias apaixonantes como se o céu estivesse mais brilhante. Às vezes estamos dispostos bendizendo as plantas do quintal e em outros, abrir o olho ao acordar é um sacrifício. Casamento é vida mesmo. Esquecemos aquele defeito do nosso parceiro como quem se acostuma com uma mancha na parede ao ponto de nem mais vê-la. Achamos que o romantismo se esfriou, quando na verdade ele esta lá, assim como as noites estreladas que faz tempo que você não para pra apreciar, a culpa não é do céu, basta levantar a cabeça. Casar não é de tudo ruim, assim como também a vida não é.
A responsabilidade não é da vida, ou do casamento, nós que exigimos absurdamente que os dias sejam gloriosos, o que é de uma estranheza tremenda. Afinal, se você não se surpreende mais com o oxigênio ao seu redor que “apenas” te mantém vivo, o que mais é espetacular?
Certo filósofo disse; “Nascer, é começar a morrer”, eu digo; “Casar, é começar a se fuder, mas fuder a dois é sempre mais gostoso”.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Últimos Segundos

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A morte me parece muito mais doce neste momento. Lhe explico.
Estou com o cano de uma pistola dentro da minha boca e o com meu polegar no gatilho. Tomei alguns remédios, mas tudo que me deram foi uma tremenda dor de estômago. Malditos suicidas que não deixam essas partes claras pra gente que vai logo depois deles. Enfim, consegui essa arma com um colega e até então só a tinha para futuros assaltos em minha residência, que digo de passagem não tem nada de valor, então não sei bem porque peguei esta maldita ferramenta de matar, talvez já premeditasse inconscientemente meu fim.  
Nunca pensei que fosse ser um suicida, muito menos que aceitaria a ideia tão tranquilamente. Passei pelas fases comuns de todos eles e cheguei ao estagio final, a falta de vontade de viver. Como todos eles, também  tenho um motivo consideravelmente idiota para por cabo da minha vida e isso me dificulta nesse momento, pois não quero ser lembrado como um idiota. Não deixei recado nem liguei para ninguém, talvez deem minha falta daqui uns dias, quando meu celular parar de receber as ligações e alguém pensar em algo pior, o que também é difícil, pois nunca deixei pistas da minha atual situação.
“Então porque esta dizendo tudo isso?” você deve estar se perguntado. Me faço a mesma pergunta. Não existe um discurso especifico para o que vou fazer. Não há nada de heroico ou certo e meus motivos não são melhores do que os dos milhões de outros que tomaram o mesmo rumo que o meu. Não existe razão, amor, motivo, família, decepção ou qualquer outra coisa que justifique tamanha atitude. Talvez a falta de motivo seja um dos motivos, o que também não seria nada inédito, pois creio que a maioria se vai com as mesmas ladainhas.
O que espero com tal atitude? Esquecimento. O total e belo esquecimento. Aquele esquecimento que trás algumas lembranças na mente das pessoas; “ele era tão bom” ou algo como “nunca vou esquecer de suas piadas”. Talvez não tenha esse retorno, mas seria interessante se fosse o caso. A vida tem sido um pandemônio sem fim, aboleto-me a ideia de que só é possível suportar as dores da alma de uma vida “viva”, negando total realidade assertiva dos males do mundo, e isso meu caro, é de ampla dificuldade para minha pessoa. Meu fim não é melhor nem pior do que o de qualquer outro, é apenas um fim. Um bocado de carne que vai parar de trabalhar incansavelmente para se manter respirando e com saúde.
Enfim, tu que me ouves, de tudo que tenho pra dizer quando se chega ao fim da vida é; não, toda sua vida não passa na sua frente. O que é um tanto decepcionante já que queria relembrar alguns momentos bons para que eu pudesse repensar minha atitude. No demais, não há nada de mágico ou causa maior. É simplesmente o fim como deve ser. Vou agora, na esperança que sirvam pelo menos Pães de Queijo em meu velório.
Celular vibra do meu lado; “Open Bar hoje, borá?!”
Droga, mortos não bebem. Largo a arma na cama, pego a jaqueta e o celular; “To chegando. Hoje eu quero beber até morrer”.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Apenas uma Aventura

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Ele falava empolgado com a boca ainda cheia de comida, o restaurante estava cheio e o barulho era alto, mas não era incômodo.
Já estavam saindo há algum tempo e ela já estava começando a gostar dele. Era simpático, engraçado, os amigos o adoravam e tinha uma maturidade infantil que ela sempre gostou de ver nas pessoas. Ele falava algo sobre o trabalho, ela não estava dando atenção, apenas acenava com a cabeça fingindo que o ouvia e vez ou outra um sorriso esboçava pra participar do devaneio. Na sua mente um único pensamento a assolava; quando ele vai embora e me deixar aqui?
Seus relacionamentos anteriores haviam deixado algumas lembranças ruins em sua mente e ela sentia que este também seria igual. Não dava pra saber.
Enquanto ele cortava um pedaço de filé ela se lembrava de seu ultimo algoz. “Será que o problema sou eu?” pensava. O primeiro foi ainda quando ela era jovem, namorados e inocentes ate que ele chegou um dia dizendo que havia ficado com um ex e que gostava dele. Passou, eram novos. O outro foi um de longo tempo, até que o mundo caiu quando no celular dele estava escrito que ele estava com ela para esquecer o cara da faculdade. Um dos mais recentes talvez foram os mais cruéis. “Uma aventura”, foi como ela foi definida. “Porra, eu amava ele”. Ela simplesmente parou de procurar e de esperar depois desses desafetos. Aceitou que sua existência era apenas passageira para os que ela considerava eternos. Seus beijos e carinhos nunca prenderiam ninguém e não adiantava se acabar na dor, pois no final nada ia mudar e de nada adiantava. A solidão a perseguiu a vida toda e não era agora que a largaria. Aceitou seu carma e seguia em frente.
- Melhor pararmos por aqui – interrompeu seu parceiro.
- Mas eu não terminei a carne, ela esta magnf...
- Estou falando de nós dois – ele engasgou e olhou espantado – você é um cara legal, mas acredite, não sou boa companhia.
Levantou e saiu.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Charles Sophie, esse era seu nome...

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    O observava encostado na porta meio duvidoso sobre nossa conversa até ali.
    - Eu lhe disse várias vezes e por dias incansáveis expus a realidade de nossas vidas. Não foi por falta de aviso nem de companhia que seu fim chegou – falava como se estivesse só – não te culpo. Eu não me ouviria. Confesso que sua visita me causou assombro.
    - Não entendi.
    - Por anos tenho tentado me acomodar na vida que levamos, e com relutância tu negas meus conselhos. Então como se nada tivesse acontecido, vem me pedir auxilio e abrigo. Me questiono  como vão as coisas lá fora – entrou deixando a porta aberta e foi em direção ao seu velho bule de chá – e se verdadeiramente é isso de que precisa - sua paciência e tranquilidade já estavam me incomodando, não era de seu costume – lembro-me de nosso último encontro. Você me deixou aos berros como um louco. Chegou abatido e saiu como um vitorioso com um olhar de que existia alguém em pior estado que tu. Por anos confabulei uma situação – puxou uma cadeira e sentou-se provando seu chá – e se eu tivesse saído por aquela porta? Isso me torturou por dias e dias. A angústia do esquecimento já tomava conta de mim. Porém, um dos piores venenos e remédios para qualquer ser no universo chegou e se revelou, o Tempo. Ele me fez companhia firme e dura incansavelmente e depois de tudo que me fez, tu aparece com esse olhar esperançoso pedindo minha humilde, e negada por anos, contribuição. – deitou sua xícara na mesa e me olhou com uma paz de ódio – pois eu te digo uma coisa seu verme; mesmo que me negues, me assombres, me abandone e me esqueça nesta casa pútrida, eu jamais me calarei, jamais te deixarei em paz, jamais te cegarei para a realidade – deu um tapa violento na xícara e se levantou a me encarar com ira – e sabes por que? Porque tu, tem mais de mim, do que de si mesmo.
    Charles, esse era seu nome. Dor, esse era seu legado. Infelizmente nossas conversas nunca terminavam amigavelmente, porém, desta vez saí e deixei a porta aberta. Espero que o sol lhe apeteça.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Solipsista...


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Passou a mão no rosto num gesto exausto. O dia no escritório tinha sido cansativo e sua alma pedia descanso. Não entendia como tudo havia chegado aquele ponto. Suas entranhas sussurravam liberdade. Deu um gole no café que já estava frio e pensou porque aquele líquido gelado ainda estava lá, devia desaparecer. Puff. Sumiu. Levou um susto quase caindo da cadeira. Seu desejo havia sido atendido. Se recompôs ainda sem acreditar muito e testou. Lá se vai a caneta na sua frente. Não acreditou no que viu, tudo que desejava que desaparecesse, sumia. Estava só, dava pra brincar. Em cinco minutos não haviam mesas nem cadeiras, computadores ou copos. Tudo havia ido graças ao poder de seu pensamento. Um escritório vazio. Sua mente se encheu de euforia, ele tinha o poder. Aumentou então seus testes. Em alguns segundos estava em um lote vazio apenas com o piso em cerâmica, olhando para a rua como se nunca nada estivesse construído ali. Pulou jogando os braços para o alto. Seu sorriso era descontrolado. Queria testar mais, mas pra isso precisava de silencio, então... Apenas o som da sua respiração pairava no universo. Puxou o ar com prazer, seu coração se enchia de tranquilidade. Estralou os dedos, preparou os pulsos, contorceu o pescoço e se perguntou qual a necessidade daquela cidade. Puff. Um deserto total o cercava, nada até a linha do horizonte o incomodava. Não havia som, pessoas, prédios e casas. Tudo estava em qualquer lugar menos ali. Ele correu feliz pelo vazio, comemorando seu grande feito. Se jogou no chão cansado e satisfeito. Estava bem, estava em paz. Porém pensou, se já tinha chegado ate ali, porque não ver o que seria possível fazer? Levantou, e pensou nas bilhões de galáxias e estrelas e se perguntou qual o sentido de um planeta tão pequeno e indefeso como o nosso. Pronto, lá estava ele pairando no infinito sem fim do universo. Nada ao seu redor alem de brilhos de estrelas e a escuridão do espaço. Não pôde segurar a gargalhada. Era um deus e tudo estava em suas mãos. Ainda sim não estava satisfeito. Chegou onde ninguém na eternidade havia chegado e não pararia por ali. Girou os olhos nos brilhos longínquos das estrelas, no astro rei Sol e nos planetas anos luz a frente e os aniquilou da existência. Vácuo. Escuridão. Do contrário do que esperava, a solidão não lhe trouxe a empolgação inicial. O breu o incomodou e desejou que desaparecesse. Assim se fez. Puff. Piscou e se viu numa sala branca com algumas centenas de pessoas no vazio a vagar sem rumo. Interpelou um dos transeuntes;
- Onde estou?
- Seja bem vindo ao Abandono – respondeu o cidadão já partindo – somos como você, destruímos um universo inteiro na esperança de felicidade e o que nos restou foi a solidão.

terça-feira, 20 de junho de 2017

EU MORRI AOS 27



    Ainda posso sentir o sangue quente saindo da minha boca e escorrendo pelo chão. Não sei direito o que me atingiu, mas estou morrendo em plena luz do dia caído no asfalto. Eu sempre soube que iria morrer aos vinte e sete.
    O Tempo é algo cruel. Em um ano as coisas podem acontecer de uma maneira inimaginável. Nunca entendi direito as festas de aniversário, comemorar a data que te leva cada vez mais pra perto da morte me causa achaque. Ou talvez seja porque sobrevivemos mais um ano sem dar adeus a esse mundo tão estranho.
    Provavelmente tenho pouco tempo para dizer algo, posso sentir as pessoas ao redor já premeditando meu fim e alguns passos desesperados. Nada incomum.
    Desde muito tempo sempre achei que morreria aos vinte sete. Nada poético, apenas tinha essa convicção estranha. Imaginava que pegaria meu filho no colo, teria uma família, amigos e morreria bem quisto por todos. Um legítimo herói. Sair de cena enquanto ainda estava-se no ápice de meu esplendor. Acreditando fielmente nessa realidade reconfigurei minhas ideias e ideais para que nada ficasse para trás. Agradecimentos póstumos são sempre tão ridículos, bendizer alguém que nunca mais vai te ouvir não faz muito sentido.
    Especialmente no último ano tenho morrido pouco a pouco e sentido que a Vida tem me ajudado a sofrer tal penitência. Descobri o verdadeiro significado de algumas palavras e emoções. Família e amigos tiveram uma nova aparência diante de minha face e estranhamente pude sentir uma Parcela do que é Amor. Os Acasos. Você que lê esse estranho epitáfio, lhe agradeço. As vidas se vão mas as ideias sempre permanecem. E se há algo que possa deixar para sua avalia é que o Tempo é pai de todos os deuses. As coisas nunca permanecem como são e o mundo gira cada vez mais veloz. As pessoas se transmutam e aqueles que eram, estranhamente se desfazem. 
    De todos os sofrimentos, o mais profundo foi descobrir que infelizmente, não sou deus. Tal descoberta estava no fundo de um copo amargo preso por anos até ser liberto. A crueldade da verdade é assombrosa. Enxerga-se olho no olho e apenas ver uma imagem embaçada de algo desconjunto e sem nexo. Se despir de orgulho, dor, apego, das certezas e convicções que até hoje eram o Ser que lhe fez Ser. Não há morte mais dolorida.

    Para dar adeus a tu que me ouve, lhe peço apenas respeito para com o Tempo e para com aqueles que um dia estiveram no seu mundo, sendo bom ou ruim. Todas as coisas tem sua causa e motivo que nos fazem quem somos. O homem que não respeita sua historia, tende a repeti-la. Segue teu caminho feliz na infelicidade e aproveita teus curtos e inúteis dias enquanto ainda os tem, pois a mim, foram dados apenas vinte e sete anos.

Ponto de vista

“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o ...