quinta-feira, 27 de junho de 2019

Amantes



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Invejo os amantes
Os de mãos dadas na praça
Beijos apaixonados
E olhares saudosos

Invejo os amantes
Os de risos trocados
De juras mal ditas
E peito apertado

Invejo os amantes
Os de piadas internas
Mordidas faceiras
E abraços sozinhos

Invejo os amantes
Os de beijo no olho
Beliscos na bunda
E meias trocadas

Invejo-os em tudo
Em suas certezas
Afetos
E sentimentos

Invejo os amantes


quinta-feira, 13 de junho de 2019

CONFESSO

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- Ela era linda doutor. Seus lábios eram carnudos, olhos profundos e grandes. Cabelos brilhantes como uma noite sem lua e de uma sensualidade deliciosa, se é que o senhor me entende. Nossos dias eram intensos. De manhã ela me acordava com um sorriso e um cafuné. Vez ou outra ouvia seus passos pela casa a procura de algum objeto inútil que ela já não sabia mais onde estava de tanto que era desatenta. Tinha um trejeito com as mãos quando ficava nervosa e seu olho flamejava de felicidade quando algo a fazia feliz. Acredito que seus pés ainda seriam lindos mesmo se todas suas unhas caíssem. Eu amava aquelas bochechas, aquele sorriso, aquele andado forte e compassado. Ela tinha risos, sorrisos e gargalhadas. Cada uma para seu devido fim e momento. Vez ou outra se confundia entre um personagem e outro, mas sempre no equilíbrio de sua própria loucura. Os cabelos da nuca eram aveludados, seios que pareciam gotas de orvalho pra uma boca desértica. Dedos finos, mãos grossas e mente afiada. Passarias horas aqui, com mais de cem motivos pelo meu encanto por ela, e ainda sim não seria possível descrever tudo que ela tem em si. Perfeita como pudim no almoço.
- E porque o senhor a matou?
- Porque eu a amava seu doutor. O amor tem dessas coisas.

terça-feira, 4 de junho de 2019

30

13 - XIII - Morte - Death  - arcano senza nome o filosofia o trasformazione o metamorfosi o cambiamento o falce o thanatos o danza macabra  - tarocchi - black & white tarot #jomanzo #ccccc #youtube #youtubeitalia #tarocchi #zodiaco #tarot #zodiac


Vinte e um do seis de mil novecentos e oitenta e nove. Canceriano, sanguíneo, destro, problemático e um legítimo amante de pudim.
Lembro da última vez que carreguei um carrinho de mão cheio de concreto e pensei que aquele ia ser o último dia que faria aquilo. Lembro de acordar em casa de noite com a chuva pingando do telhado bem na minha testa. Lembro de dormir mal. De acordar mal. De comer mal. Lembro de suar no sol em busca de um sonho. Lembro de sofrer e chorar noites a dentro acreditando que um dia tudo ia mudar. Eu lembro de acreditar.
Me formei sem honras. Tive pouco dinheiro pra comprar roupas e meus tênis sempre tinham furos. O que me faltava de dinheiro pro lanche me sobrava de fome. Eu nunca fui o mais bonito, mais esperto, com as melhores ideias ou aquele que todo mundo nota quando entra. Minha adolescência não foi diferente nem especial, eu só existi. Mas eu quis ser alguém.
Comprei uma casa, um carro, moto, tive um cachorro,  uma família, fiz um filho, escrevi um livro, plantei uma arvore, abri uma empresa, fali uma empresa, abri novamente outras, trabalhei com o que quis, fiz amigos, conheci pessoas e tentei ser feliz. Usei drogas pesadas, mas nenhuma pior que o amor. Acreditei em deus, pedi a ele vitória nas derrotas e sabedoria nos momentos difíceis, mas ele se cansou de minhas dúvidas. Li incansáveis livros de infindáveis assuntos e me viciei. A leitura sempre teve o poder de me transportar pra longe da realidade. Tentei dar cabo da minha vida, dei a volta por cima. Dormi no chão com meu filho, passei fome e frio com ele, e por dias fingi que tudo ia bem enquanto me preocupava com o que dar de comer e beber pra única pessoa que me fazia rir. Eu morri incansáveis vezes todos os dias, mas sempre acreditei que um dia tudo ia mudar. Peguei oito transportes por dia com filho no colo e quatro bolsas no ombro. Chuva, sol, neblina, vento. Fui roubado. Abandonado. Esquecido pela maldita felicidade. Eu sofri, não mais que alguns, mas sofri. E dor é dor não importa quanto dói.
Hoje olho para as fotografias do passado e me pergunto quem ocupava essa carcaça. Um dublê de retratos. Quem estava desesperadamente tentando se provar? Quem foi o tolo que utilizou tanto tempo de sua finita e curta vida com coisas fúteis e desnecessários? Quem foi essa Persona? Quem em sua legítima dignidade, apostaria tão alto em sonhos dos outros?
Escrevo agora, sentado debaixo da samambaia na minha sala. Eu sempre quis uma. Possuo alguns bens, mas nenhum maior que meus livros, quadros, plantas e desenhos. Meus problemas não findaram, eles nunca findam. É uma regra universal. Mas não são mais problemas. São processos. Durante toda a vida eu tentei provar ser alguém para o mundo. Ser a pessoa de sucesso que a gente acredita que vai ser. Não só material, mas completo, pleno. Erros que não cometemos duas vezes.
Hoje mais maduro e consciente, aceito minha infelicidade a cada ano e me aproximo da premissa de Sócrates; “Torna-te quem tu és”. Tarefa árdua e pesada. As riquezas comuns, essas que a gente conquista com trabalho e dinheiro, me importam porque não sou parvo, mas tomaram uma posição diferente.
Tudo que quero é ser como deus, o da bíblia cristã. “Eu Sou”, foi a única vez na história que deus se apresentou na sua mais simples e pura definição. Imagino a cara de Móises ao ouvir sua resposta. Porém entendo muito mais deus. Que outra resposta melhor seria dada se alguém perguntasse quem tu é? Tire seu emprego, bens, família, traumas, cicatrizes, lagrimas, choros, roupas e tudo mais que voce carrega e me responda; o que sobrou? O que há por baixo dessa falsa ilusão de auto conhecimento e orgulho desnecessário? Se despir de nomenclaturas e aceitar-se como é, isso sim é divino. Isso sim é ser Deus.
E se há algum conselho que possa ser dado após essa minha curta e insignificante existência, é esse; Torna-te quem tu és.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Lembrete


Ser mulher


       Ei, menina, ele vai ser feliz sem você.
       Triste né?
      Aquele sorriso, as noites no parque, as piadas internas, o carinho gostoso, os beijos de amor. Tudo um dia acaba, até os amores eternos. A solidão bate, a saudade mata e as lágrimas lavam todas as roupas sujas do relacionamento que findou. É o fim.
       E a pior notícia é que você também vai ser feliz sem ele. É ai que dói mais. Custa aceitar, mas é a verdade.
       Não interessa de quem foi a culpa, quem errou primeiro, quem foi mais orgulhoso ou quem foi o sacana. Todos nós somos vilões no quesito amor. Uma certeza que temos sobre os homo sapiens é que de alguma forma eles vão nos decepcionar. É inevitável, aceite. E quando menos perceber vai ver que a culpa não foi dele, nem sua, é apenas a vida seguindo seus caminhos.
       Se dê o direito de ser feliz também. Pare de procurar companhias externas, se namore. Mas cuidado, não seja tola. Seja feliz por você e não para que o outro veja o quanto você está melhor sem ele. Se ame. Se enxergue. Se demita desse sentimento falido.
       Vá ao cinema, tome um café e leia um livro naquela cafeteria que sempre quis. Compre roupas, saia com os amigos, se abandone sozinha em casa. Faça festa, ande nua, chore com a solidão e dê atenção para a única pessoa que nunca vai ser passageira na sua vida: VOCÊ.
       Se chame pra conversar. Lembra daquelas coisas que você sempre quis mudar? Essa é a hora. Seja verdadeira com essa pessoa que sempre quis te namorar e você nunca deixou porque estava ocupada demais entregando todo amor que tem para outro. Se namore. Aproveite pra entender todo aquele apego, falso amor, ilusão, carência e todo o resto que só alguém com um coração realmente completo entende. Seja plena. Você merece.
       Eu sei que assusta. O silencio é ensurdecedor, mas toda boa canção é feita de Som e Silencio. Aponte um lápis e escreva aquela partitura no seu coração. Se componha e recomponha até que som e silencio não sejam mais coisas separadas, mas sim uma bela orquestra de autoconhecimento.
       E se eu posso te dizer algo:
                 Ei, menina, você vai ser feliz sem ele.

domingo, 26 de maio de 2019

CONPLORATIO


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       Ela chorava caída no banheiro.
       Seu olho estava borrado com aquela cara de clow abandonado. Havia alguns dias que tinha terminado seu relacionamento e naquela noite ia se encontrar com mais um daqueles carinhas dos aplicativos. Mas desistiu.
       Ela já estava em prantos a alguns minutos e tudo que podia sentir era dor. Alguns dizem que a dor de amor é igual dor de dente, dói tanto que não da pra pensar em mais nada. Ela sabia bem.
Tinham sido anos perfeitos. Todos os detalhes eram exatos. Mas acabou, e ninguém tinha culpa. Era a vida seguindo suas vontades. Ela tinha que aceitar e entender. Era duro, mas era  melhor. Não era justo jogar todos os pedações quebrados de relações passadas em pessoas que não merecem isso. Ela precisava se juntar. O momento não era de festa, era de tristeza. Descontar suas carências e magoas em outras coisas e pessoas só a levava para mais longe de si. Era isso.
       Como um rei vendo sua cidade sitiada e tudo que ate ali construiu, ela desmoronava sentada no banheiro, mas tudo que aconteceu não foi raso para ela se entregar a relações rasas e desnecessárias.           Foi tudo perfeito, lindo, magico. Mas acabou. E como é duro aceitar algumas verdades.
       Pegou o celular e cancelou o encontro. Continuou a chorar.
      A dor é inevitável mas o aprendizado é uma escolha. Infelizmente as pessoas não vão nos amar como queremos ou desejamos. Seremos carrascos em dias e salvadores em outros. Em dias amaremos e em outro odiaremos dobrado. Mas acima de tudo lembrar que sofrer não é ruim, não entender o sofrimento que fode tudo. E ela entendeu.
      Levantou, colocou aquele filme que lembrava os dois, pegou um pote de chocolate e se entregou aos prantos. Entre tantas escolhas difíceis, ela escolheu ficar só, em dias de dor.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dia


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5:32. Despertador toca
Levanta rápido. Pantufa. Escova os dentes e lava o rosto. Olhada no espelho. “Hoje vai ser um grande dia”. Corre pra vestir a blusa. Aperta botão. Errado. Desfaz. Aperta botão. Calça sapato. Sem tempo pro café. Passos rápidos. Não corre pra não suar. Tropeça. Resmunga calado. Ônibus não chega. Olha no relógio. Atrasado. Parada lotada. Chega ônibus. Corre pra entrar. Alguém pisa no sapato. “Lavei ontem essa merda”. Em pé. Calor. Aperto. Outra pisada. Da sinal pra parar. Não para. “OOOooouuu”. Parou longe. Desce. Passos rápidos. Não corre pra não suar. Trabalho. Digita. Envia. Conversa. Formulário. Bronca do chefe. Arquivo errado. Festa surpresa do colega da mesa ao lado. Risos. Derrama refri na blusa. Sapato pisado e blusa com sabor de laranja. Fim de expediente. Passos rápidos. Não corre pra não suar. Tem horário com a namorada. Cafeteria. Atrasado. Justificativas. Conversa. Ela pede um tempo. “mas porque?”. Cai café na calça. Sapato pisado. Blusa com sabor laranja. Café na calça. Para lotada. Ônibus atrasado. Chega ônibus. Não corre. Da na mesma. Lotado. Desce. Abre porta. contas atrasadas no chão. Banheiro. Olhada no espelho. Suado. “Não corre pra não suar”.
00:24. Dorme.

Uma triste carta de um ateu convicto

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     “O senhor tem cinquenta centavos?”
     Odeio quando o caixa faz esse tipo de pergunta. Adoentado com discalculia crônica, esse tipo de indagação só serve para me humilhar em público. Foi nesse dia, saindo de uma padaria com sete pães de sal, que a divindade me disse adeus.
    Do contrário de muitos, minha retirada do rito religioso não foi devido a algum tipo de revolta ou indignação com o sistema opressor e toda essa essa ladainha. Muito menos a ignorância de me achar superior aos que pensam assim na ideia de que esse pensamento é retardatário. A única atribuição para tal feito, foi simples, singela. Deus simplesmente não está interessado em minha pessoa.
     Antes de mais nada, eu digo; Durante toda minha vida, lutei para acreditar na existência do Pai Celestial Criador do Universo e Guardião da Vida. Li, reli e esquadrinhei cada religião ou rito que me ajudasse nessa esperança. Cheguei ao ponto de nem considerar o deus cristão pois já entendia que só era a primeira camada de várias outras que viriam a se desfazer. Descobri tantos paraísos e tantos infernos. Descobri que todo mundo vai pro inferno da religião de alguém. Descobri que a fé só faz sentido para o crente. Cheguei a encontrar meu próprio “deus”, aquele livre de qualquer vínculo filosófico religioso. Persegui milhares de deuses e nenhum me deu uma singela piscadinha de aceitação. Após todo esse tempo, lutei para continuar crendo na ideia ingênua e particular que em algum momento magico a luz da espiritualidade me incendiaria e eu enfim me tornaria o grande locutor de uma caminhada cética que teve seu triunfo aos pés do criador (ou criadores). Anos de história não me deixaram continuar. Aceitar que tudo aquilo não existia doía meu coração. Não podia ser, sempre foi tão forte, eu sempre senti, eu sempre acreditei, eu tinha certeza. Onde foi parar tudo?
     A necessidade humana em terceirizar suas responsabilidades nos fizeram ser extremamente criativos na arte da imaginação. Em todo traço minúsculo dos Sapiens na história do universo, tudo que vejo é uma histeria em massa que transcende gerações e desvincula qualquer tipo de realidade e responsabilidade. Tudo que eu sempre senti quando acreditava em deus continua aqui. Todos os sentimentos, esperanças, amor, fé, cura, paz, tudo, absolutamente tudo ainda está aqui dentro. Porém, com um medo terrível de aceitar essa verdade, tudo é meu. Nada nunca foi de fora. Meu impulso de ser melhor nunca foi deus. Eu sempre fui deus de meu próprio universo e estranhamente sempre tive medo dessa responsabilidade. Assim como uma boa parcela dos religiosos.
     O peito estufa e a boca se enche quando um ateu afirma sua filosofia, eu porem, chorei. Olhei para o céu com respeito e disse adeus. Assim como os padres faziam. Tenho certeza que deus entenderia, se ele existisse. Hoje entendo que pertenço ao conglomerado de vida que ocupa a finidade desconhecida do espaço, só isso. É triste sabermos que não somos especiais. Que alguém de outro mundo ou dimensão não liga para o que você faz ou fala, melhor, que na verdade isso nem existe. É como uma brincadeira de criança que chega ao fim. A esperança no amanhã não está mais na crença de que poderes sobrenaturais irão me ajudar, e isso meus caros, é libertador.
     Não quero com isso insultar ninguém, não sou nem um pouco digno disso. Muito menos convencer qualquer um de minha ideia. Meu objetivo maior é ter paz. Entendo a grande preocupação de meus amigos e próximos com meu bem estar após a morte e agradeço. Continuem torcendo, a vida continua girando e tudo que se pensa hoje pode mudar amanhã. A descrença em deus não me torna amigo de satanás, apesar de conhecer alguns demônios. É apenas mais uma ideia nessa mixórdia de santos e humanos.
     Se um dia algum desses deuses quiserem me castigar pela audácia, prefiro o inferno do que o paraíso de um ditador.

Ponto de vista

“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o ...