domingo, 19 de fevereiro de 2017

Liberdade...

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Não te exijo amor
Nem felicidade
De tudo que quero
Apenas te ter ao meu lado

E se mesmo de longe estiver
Sem querer de mim se achegar
De longinho vou sempre olhar
Meu amor a andar

Não te exijo amor
Nem a tal da verdade
Sei que se fores minha
Não terás tão maldade

Não te exijo amor meu amor

Nem a tal da saudade

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Já matei uma mulher...

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Tinha uns dezessete ou dezesseis anos quando cometi meu primeiro assassinato.
Era dia. Não lembro se antes ou depois do almoço. Meu objetivo era claro; bater em algumas casas de um bairro pobre de minha cidade e perguntar “Você é feliz?”. Montado em minha bicicleta de cano preto com uma tinta vagabunda, eu rodava para cada vez mais dentro daquilo que na época se assemelhava muito a uma favela. Tinham algumas crianças brincando na rua. Elas corriam desapercebidas e tranquilas. Eu já havia falado com algumas pessoas. Os perfis eram simples, casas mal apresentadas ou pessoas com ar de extrema pobreza, afinal, uma de minhas ideias era que o dinheiro conseguia maquiar bem a realidade da mente humana, fazendo com quem não tinha muitas condições financeiras permanecesse em um estado de infelicidade comum. Não existe tempo para felicidade em meio às contas atrasadas de água, luz e aos berros das crianças com fome.
Pedalando como uma presa faminta querendo provar minha teoria tão perspicaz, passei em frente em uma casa sem muros. Os arames farpados atravessavam troncos fincados no chão meio caídos e quase podres. A casa tinha um telhado velho e mal colocado. As paredes sem reboco e a calçada era barro batido, e pela vista rápida, parecia que a casa também não tinha um piso para cobrir a terra. La vinha uma mulher de cabelos bagunçados e com uma criança no colo. Um vestido rosa permeava seu corpo torto por segurar aquele ser de poucos meses nos braços. Sua pele era corada e evidenciava seu trabalho no sol, talvez lavando roupa ou fazendo qualquer tipo de trabalho braçal. Não arrisco uma idade.  Seu rosto estampava o personagem perfeito para minha pergunta.
Dei a volta com a bicicleta e me aproximei devagar já perguntando de longe;
- Tenho um trabalho de escola e posso fazer uma pergunta pra senhora? É uma entrevista de um questionamento apenas – e esbocei um sorriso brilhante.
Ela me olhou melhor e depois de ver que um saco de osso era inofensivo, encostou no tronco que provavelmente era a entrada da casa e respondeu inocente;
- Tudo bem. – ajeitou o cabelo e deu uma recolocada no bebê, afinal não é todo dia que alguém ia lhe entrevistar.
Peguei meu celular velho do bolso, liguei a câmera, apontei e dei meu tiro cruel.
- VOCÊ É FELIZ?
Recordo-me bem dessa cena. A pergunta a tinha acertado como uma paulada na cabeça. Ela me olhava em silencio e com os olhos meio duvidosos. Havia entendido a pergunta, não estava confusa. A palavra FELIZ ativou um gatilho em sua mente que a deixou pasma no universo. Eu observava aquele ser, com uma casa completamente destruída como cenário e uma criança que evidentemente não se alimentava direito. Meu celular ainda estava filmando, meus olhos focados aguardando sua resposta. Ela abaixou a cabeça meio sem graça, arrumou a criança de novo jogando-a um pouco mais pra cima de sua cintura e olhou para esquina. Seu semblante anunciava a decepção. Um mundo tinha se revelado e a realidade agora era escura e triste naquela face.
Não me recordo de sua resposta, nem do que falei depois. Se agradeci ou se desisti do retorno. Porem sinto uma angustia terrível, pois sei que a realidade que aquela mulher negou a vida toda, veio como um tiro na testa travestido de pergunta. Definhou na minha frente devagar. Eu fui algoz de sua alma. Estraçalhei os miolos daquele humilde ser. Seu coração sangrou arrependido de ter dado espaço para tamanha crueldade que cometi.

Parei de atirar, a possibilidade de vitimas fáceis me circunda. E a mulher, deve estar definhando e apodrecendo até hoje.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Eu...


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Em meio a escuridão invoco os demônios para me perturbarem. Onde estão vocês seus covardes, que se escondem nas sombras a perturbar apenas aqueles que fogem de suas presença? A sombra da cadeira não remexe, não sinto mal, não sinto o inferno. Pertuba-me apenas nos pensamentos. Malditas almas tenebrosas que me assolam e me tiram a paz. Do mais profundo inferno criam seus estratagemas para tirar o sono das pobre carcaças que caminham sem rumo pela terra. Os observam chorar nos cantos das noites, deitados em seus leitos sem sentir nenhuma presença humana, apenas os olhos fixos de seus algozes demoníacos. Eu vos invoco personagens de satanás. Saiam de dentro dos armários, façam seus zunidos arrepiantes, lhes convido a vir tirar minha coragem. Acostumados a sugar o medo e exalar terror, são apenas peças frigidas de um mundo desiludido. De minha cadeira não sinto os malditos, não os vejo fora, não os sinto no ar. Mas estão em um lugar bem pior para se habitar. Habitam em mim, nas ideias, nas tripas sangrentas de minha alma seca pela dor de esperar algo. Eles comem minha carne emotiva se alimentando de toda ilusão de tranquilidade. Os malditos estão por toda parte como um monte de baratas no esgoto. Saiam e corram para os becos pois dentro de mim não há mais o que se absorver seus malditos sangue sugas.
O que fiz pra essas criaturas? Meus olhos lacrimejam todas as noites sem motivo algum, meu corpo padece como uma dança lenta e cruel. Matem-me, me levem, mas terminem logo com isso. Suas garras fincaram profundamente em minha alma. Os desgraçados vermes de suas podridões já se multiplicam dentro de minha boca. Eu vos invoco para fora, para que me deixem em paz. Mil vezes lhes observar com seus olhos caninos nas noites escuras, do que velos em minha mente.

Malditos, covardes e ocultos. Atormentam-me com o silencio, a dor, sofrimento e solidão.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Correspondencia...

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Voce me abandonou.
Me desculpe, mas não consigo começar esta carta de outra maneira. Estou acostumado a receber varias cartas de declarações infinitas e maravilhosas, mas a situação que me encontro me obriga a seguir um rumo diferente do natural. Para refrescar sua memória, irei falar resumidamente de nossa historia.
Como já sabe, eu sou o Amor. Tenho te acompanhado em varias fases da sua vida e obedecido suas ordens com muito rigor. Hoje infelizmente lhe escrevo de um quarto escuro  sob uma luz fraca numa escrivania.  Minhas lagrimas correm do meu rosto ao lembrar quantos momentos bons tive enquanto estava com você. De todos os sentimentos, sou aquele que motiva e acelera o coração. Faço as mãos suarem, o passo andar errado e os olhos não terem foco. Caso não se lembre de nossas façanhas, eu lhe obedecia sempre que pedia. Ia morar em um coração quando a você convinha. Lembro de corações que habitei que me deram um ar de eternidade e onde tive dias maravilhosos de muita abastança, porem lembro de outros que você me deixava no qual eu ficava dias a porta querendo entrar sem o menor sinal de esperança, mas permanecia lá, paciente, por que você me solicitava. A mim foi dado varias tarefas nas quais obedeci com prazer. Quando tu me pedia para ser-me sentido, fazia isso com todo vigor. Fui eu que sempre dei as ideias das flores, dos poemas, do toque sutil no braço para chamar a atenção. Sempre trabalhei horas a fio mesmo quando, por seu comando, outros sentimentos iam me visitar sem total respeito. Cansei de receber o Medo em dias tenebrosos, e depois de vários dias de argumentos, pedir que saísse com total educação. Sinto muito por tudo que aconteceu após a visita de nosso ultimo amigo, a Dor, mas por favor não me culpe.
Sei bem que não foi a seu pedido que ela chegou, mas sinto dizer que Dor contumazmente me faz companhia. Não para lhe afligir mas para me ensinar. Lembro-me com bastante clareza de nosso ultimo coração. Eu habitava ali com tamanha tranquilidade como se nunca nada me expulsaria. Éramos felizes mesmo tendo constantes visitas do indiscreto Medo. Eu sempre dava um jeito. Mas então, em um triste dia, Dor me falou que tu não me queria mais. Como lamento esta data.
Sei que sempre tive paciência demais com alguns sentimentos confusos que iam a me encontrar, mas sempre prezei e desejei que meu trabalho fosse feito com tamanha garantia, para que você sempre fosse feliz. Infelizmente não me foi dado o privilegio de saber o que ocorre fora de um coração, sempre obedeci somente ordens, mas independente do que tenha acontecido, te peço com total sinceridade; Não me deixes aqui só.
Tenho ouvido que a Dor tem grande apreço por Medo e estão a conviver muito bem juntas. Meu dias tem sido tristes e vazios. Estou tão acostumado a receber tantos corações amantes e tudo que me resta hoje é ouvir a Paixão contando vantagens todas as noites quando alguns outros lhe chamam.
Não irei me estender sobre meus argumentos, apesar dos pesares ainda aguardo seu chamado. Gostaria apenas que soubesse que você pode receber todos os meus colegas, mas somente minha presença lhe trará tranquilidade para suportar todos eles. Não sei quanto tempo mais irei suportar esta espelunca, o aquecedor quebrou e tenho passado noites a tremer de frio.
Novamente lhe peço que não me culpe, tudo que realizamos juntos foi com total sinceridade e mesmo que alguns corações que visitei não tenham me recebido muito bem, estou disposto a lhe acompanhar ate que consigamos um tão grande e com vários quartos para que consigamos hospedar todos meus amigos em seus devidos lugares, pois não sei se sabe, mas um coração em paz não é onde somente eu habito, mas sim onde todos  os Sentimentos consigam conflitosamente conviver em paz.

ps: Mande abraços para Saudade.

                                                                                                                                  Ass: Amor

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Panda Assassino...

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La estava ela, seus olhos já vermelhos de tanto chorar agora estavam apenas marejados e olhando para fora do carro. Ele não entendia como tudo chegou naquele ponto, tanta felicidade juntos pra no fim se resumir sentados discutindo o fim em uma rua escura.
Sempre foi linda, ele a observava calado, triste e decepcionado sabendo que uma boa parte da culpa era dele, sempre foi.  Ela não queria olhar para ele, firmava seus olhos em algo la fora como se estivesse ao lado do saqueador de sua aldeia. E no fim talvez era. 
Sua vontade era de pedir perdão loucamente ate que adiantasse alguma coisa e os dois permanecessem aquilo que não se tinha nome ou definição, mas que era bom, pelo menos pra ele, pois pra ela havia sido um tempo de tortura e solidão.
Durante todo tempo ele tinha sido algoz de sua alma. Infelizmente se tocou disso apenas naquela noite. Como um exercito de ocupação invadindo uma cidade sem total respeito ele havia destruído construções e vontades dentro dela. Era triste saber que o amor e o ódio andam na mesma corda bamba, tentando derrubar um ao outro. 
Naquele curto tempo lembrou de tantos momentos maravilhosos juntos e aqueles pensamentos que eram tão prazerosos se tornaram pesadelos dentro dele, “como pude” se questionava olhando ali para aquela silhueta ao seu lado. Tudo que ele sempre quis estava prestes a virar as costas e dizer adeus. Ir embora para outros braços, outros beijos, outro que daria tudo que ele incompetentemente não conseguiu dar. Era triste.
A angustia é um sentimento cruel. A sensação de uma faca estar penetrando seu peito sem encontrar nada la dentro, o vazio silencioso e infernal da alma sem saber o que fazer. Era um sentimento de assalto, como se alguém houvesse levado tudo que havia dentro de si. A sensação de que o oxigênio esteja indo aos poucos. De estar dentro de uma caixa completamente desesperado e claustrofóbico. De todas surras que já levou na vida, talvez aquela era a mais dolorosa.
- Quer falar mais alguma coisa? – disse ela virando e olhando para ele como se ele fosse como todos os outros, normal.
- Me desculpe – respondeu.
Ela o olhou pela ultima vez, não dava pra saber se era raiva ou decepção, abriu a porta e se foi.
A sua imagem ia sumindo, indo embora com total convicção do que queria, e ele, completamente perdido e agora sozinho. Se era amor ou abandono, não sabia, mas decidiu nunca mais ter esse sentimento novamente.
Ali no escuro sozinho olhando pela janela, o silencio da noite era uma companhia ótima. Sua alma já não sabia mais o que sentir. “Como pude?”, se questionou novamente. E se não existisse o medo? Se ele tivesse falado tudo que sempre quis? Se naquela noite de amor o “eu te amo” tivesse saído da ponta de sua língua? Se não fossem tantos processos para obedecer, daria certo? Não importava mais. A dor que havia ficado no lugar dela era como entrar num lago gelado e ficar somente com a cabeça pra fora tentando respirar. Encostou a cabeça no volante e deu um ultimo suspiro choroso.
Uma batida no vidro do carro e ele levantou a cabeça esperançoso. Um homem armado e vestido com uma blusa estampada com o que parecia um panda mandava ele sair. Ele ficou imóvel olhando aquela imagem através da vidro sem se importar com o desespero de seu assaltante.
Desceu devagar e ficou na porta olhando com olhos vagos para seu carrasco. “Me da a chave se não te mato”, disse o assaltante apontando a arma para sua cabeça.
Ele deu um passo a frente devagar, encostou a testa na arma e disse;
- Meu caro, de todos os tiros que levei hoje, esse será meu acalento. De todas as ameaças essa será uma declaração. Não se pode dar fim no que não existe mais. Lhe darei a chave em troca de um simples favor. Seja meu redentor e livre minha alma dessa triste realidade de desafetos e desprazeres. Lhe garanto que o favor que fazes não será contado como pecado no dia do juízo, pois por fim em uma alma dolorida é melhor que deixa-la vagar sem sentido.
De nada adiantou. La estava ele, em pé, olhando o carro sendo levado por um desconhecido.

Não sabia se havia morrido ou não, pois o sentimento de insignificância e não existência era o mesmo e era assim que viveria pelo resto de sua vida, pelo menos ate o próximo assalto.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Leonardo...

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A vida é de uma tristeza descomunal. Alguns escritores nunca ao menos se deram ao luxo de ter heróis em seus contos pra garantir o sentimento de pequenez de cada ser humano. Não existe um ser vivo no universo que não esteja lutando diariamente pela sua sobrevivência. Dentre tantas batalhas a falta de respeito para com o Tempo é esdrúxula, simplesmente desconsideramos a efemeridade da vida e apenas batalhamos sem fim. Nesse meio tempo nos agarramos a algumas futilidades, e as vezes, encontramos o motivo de cada curva no tempo. Descobre-se que Amor é a consciência de que o outro lhe fará mal e mesmo assim querer ao lado. É gastar tempo, paciência, dinheiro, perder o sono. É sentir raiva , dor, desanimo e mesmo assim abraçar seu amante com uma Felicidade desesperada. É saber que provavelmente nunca terá a retribuição proporcional e mesmo assim se entregar de alma e coração. Amor é tristeza e sofrimento meu caro, e por algum motivo desconhecido, nós adoramos isso.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Seu deus é um imbecil...

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La estava ele, jogado no sofá olhando para o teto como sempre fazia quando chegava do trabalho. Sua rotina era sempre a mesma, para um homem solteiro na faixa dos seus trinta e morando sozinho, o aconchego do seu lar era tudo que ele queria o dia todo.  Sua vida era boa na medida do possível. Ficou ali alguns segundos, quieto, repensando tudo que ocorreu desde que o sol apontou no horizonte, nada demais. Lembrou de um detalhe fútil que vira mais cedo de uma criança pedindo esmola. Respirou fundo, esfregou as duas mãos no rosto preparando-se para levantar e pensou, “Deus podia ajudar essas pessoas”.
Seu pensamento nem terminara de ser finalizado e ouviu a descarga do banheiro logo ao fim do corredor. Levantou num pulo assustado já pensando nas mil maneiras que um assassino poderia ter entrado na sua casa e ter sido abusado o suficiente ao ponto de antes de levar seus pertences, dar uma pausa para suas necessidades básicas. Fez um calculo rápido de quanto tempo demoraria para pegar a faca na gaveta da cozinha. Não ia ser difícil, era uma cozinha americana feita sob medida para seu apartamento onde o acesso a sala era fácil para deixar as pessoas mais próximas nas festas e jantares que sempre planejava.
A porta se abriu e antes que desse tempo, viu um homem bem vestido com calça jeans azul, allstar branco e uma camiseta xadrez dobrada ate os cotovelos secando suas mãos na toalha de rosto azul que ganhara numa festa da firma. Surpreendido, pois não esperava ver tal imagem, ficou ali congelado observando sem saber ao certo se corria ou se oferecia um café.
- Boa noite meu jovem – largou a toalha no chão do corredor e veio com as mãos estendidas e um sorriso no rosto – prazer te conhecer.
Sem saber ao certo o que estava acontecendo ali, estendeu a mão e retribuiu o gesto. Ainda estava parado no centro da sala observando seu visitante um tanto abusado se jogar no sofá de couro e afundar em quatro mil reais de puro descanso, pelo menos era o que a loja havia lhe dito.
- Quem é você? – perguntou olhando ao redor tentando entender a situação.
- Eu? Como assim que sou eu!? – o homem parecia um pouco consternado – isso é lá coisa que se diga para alguém da minha patente? – levantou e foi em direção a cozinha.
- Patente? Você invadiu a minha casa e usou meu... – deu um passo tímido ao ver seu visitante abrir a geladeira e pegar um vinho tinto – você é louco? O que você esta fazendo?
- Meu caro, evitemos os arrodeios – encheu um copo de vinho, bebeu num gole só, suspirou com um prazer inebriante – pode me chamar de Deus. – e voltou a encher o copo.
O de costume não vou contar aqui. É de se saber que na presença do Deus de todo o universo, foi pedido provas materiais da veracidade dos fatos. Questionamentos sobre porque a forma visual tão descolada e todas elas foram dadas. Aquele visitante apresentou provas físicas e visuais suficientes para que sua autenticidade não fosse mais questionada. Após um longo dialogo costumeiro de todos que se deparam diante de Deus, e Ele, ainda com sua garrafa de vinho e sua taça sempre cheia sentou-se no sofá ao lado daquele morador abismado e fascinado com sua presença.
- Não sabia que Deus era tão jovem.
- A sabedoria só se encontra na velhice? E alem do mais só tomei essa forma para facilitar sua recepção.
- Se quisesse facilitar minha recepção poderia ter começado batendo na porta e não dando descarga numa casa onde mora apenas uma pessoa.
- Mas ai eu ia perder o timing - deu uma piscada e bebeu mais uma taça.
- Também não sabia que Deus podia beber.
- Meio irracional partindo do principio que fui Eu que tive a ideia das uvas... e dos canaviais.
- Ok. Esta um pouco confuso. Porque logo na minha casa? Tanta gente melhor e mais merecedora da sua visita, e o Senhor veio usar logo meu banheiro.
- Ora, porque você tinha uma conversa a ser discutida. As pessoas passam horas repetindo algumas palavras, fazem mil sacrifícios, seguem e milhares de rituais e esquecem que quando você quer falar com alguém, basta chamar. Tudo muito simples. – bebeu mais um copo – não as julgo – soltou um riso malicioso – não agora, se é que você me entende.
- Mas eu também não chamei, apenas pensei.
- Será? Vamos fazer o seguinte; vou lhe dar direito a algumas perguntas, evidentemente não darei a resposta pura como são pois você jamais seria capaz de compreender, mas pensaremos juntos num entendimento que mais lhe caiba e ajude sobre seu “apenas pensei”.
- Esta me dizendo que vai me dizer o sentido da vida?
- Ah nem, seja mais criativo – se ajeitou no sofá enchendo o copo – pense bem, você esta diante de Mim, pense em algo que seja útil e verdadeiro para sua vida. Mesmo que eu te diga o sentido da vida e você escreva um livro sobre isso, ninguém vai acreditar e sua noite foi desperdiçada. O que você precisa saber hoje meu caro? Pense sobre o que realmente importa pra você.
Uma pausa. Ele olhava para aquele que mais cedo se apresentara como Deus, bebendo suas infinitas taças de vinho e pensava o que uma pessoa conversaria se o Criador de tudo e todos estivesse tomando vinho, sentado no sofá e vestido como um play boy de classe media alta. Passou a mão no cabelo, se acomodou e decidiu;
- Qual a religião que tem o deus certo? - o olhar de desapontamento  divino era claro – o que foi? É uma pergunta útil para mim pois a resposta vai me dizer como devo proceder para ter uma vida correta.
 - Pergunte isso para um Hindu e sabe qual reposta vai ter? Todas. Todos os deuses tem sua função no cosmo e na vida das pessoas. Você me pergunta isso porque mora num pais colonizado por uma religião que prega um único deus. Refaça esse questionamento para um indiano e ele ira tratar o seu deus como mais um dos dele. Acredito que a pergunta mais lógica é se um único Deus é mil ou se mil é um Deus.
 - Agora entendi quando falou que não ia me dar respostas.
- Parece cliche, mas as respostas sempre foram ditas – bebeu mais uma taça e levantou a garrafa para conferir o restante do conteúdo.
- Tenho água na geladeira se o vinho acabar.
- A piada foi boa, mas ainda tenho o suficiente aqui – encheu novamente o copo.
- Acredito que o álcool não faça efeito não é?!
- É seu terceiro questionamento inútil, já estou começando a me arrepender de ter vindo – colocou os pés na mesa de centro e olhou as horas no relógio.
- Tudo bem, Tudo bem – sentou na ponta do sofá com um ar curioso – lembro-me de ter ido a igreja uma vez, e ouvido que “Deus se arrependeu de ter feito o homem”. Você acabou de falar em arrependimento, mas não é sobre isso exatamente que quero perguntar e sim sobre um sentimento que pode recorrer desse “arrependimento”. Não duvido da sua bondade, evidente, mas e da sua maldade? O Senhor, Deus, também é mal ?
- De acordo com sua definição, sim – não ligou muito para a ideia e virou mais um copo de vinho
- Esta me dizendo então que a culpa de todo mal do mundo é do Senhor?
- Meu jovem, porque o espanto? Pense comigo; fui competente suficiente para criar a complexidade e a infinidade das partículas do universo, e não teria controle sobre a minha criação? Se mil passam fome foi porque passou pela minha total aprovação, se um teve capacidade de matar milhões, foi porque eu autorizei que assim procedesse. Na visão humana, que digo com humildade, é um tanto pequena – bebeu mais uma taça – eu seria cruel, mas sinto desaponta-lo e dizer que grandes poderes requerem grandes sacrifícios.
- Homem aranha.
- Adoro esse filme, os primeiros foram ruins, mas depois ficou melhor – tirou o pé da mesa e encheu a taça novamente – você não tem filhos, mas pense comigo; um pai que proíbe o seu filho de ter contato com certos amigos, ou que o castiga retirando algo que ele gosta, ou que vez em quando não o deixa ir para certos lugares ate que suas notas melhorem ou que suas atitudes dentro de casa se ajeitem – bebeu a taça cheia – é um pai mal? Talvez. Do prisma do pobre filho que tem a limitação da juventude, seu pai é um ser cruel que pouco se importa com sua felicidade. Um patrão de uma grande empresa, a sua por exemplo, que manda embora metade de seus funcionários para que a empresa continue funcionando e em plena saúde financeira, é um patrão insensível?
- São coisas pequenas quando falamos dos males do mundo.
- Pequenas? Quando se trata de maldade não existem miúdos e graúdos. A questão é a quantificação do que os seus olhos veem e o que não veem. Todos os dias, milhares de mini deuses tomam decisões que prejudicam milhares de outras pessoas, e sobre todos eles tenho total controle – virou o resto de vinho na taça e olhou pelo gargalo surpreendido como acabou tão rápido – o que me surpreende ainda é pensarem que poderia existir um deus que estaria observando toda essa maldade do mundo e ficaria indiferente sendo apenas um espectador da sua própria criação. Seu deus é um imbecil, e seu vinho acabou – jogou o resto de vinho da taça no rosto de seu ouvinte.

Acordou num susto, sentado no sofá com uma taça vazia em uma mão e a garrafa de vinho caída perto da mesa de centro. A televisão estava ligada, Peter Parker beijava Marie Jane e se despedia.

Ponto de vista

“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o ...