terça-feira, 21 de junho de 2016

Sapato Cafona...

“Estação Arniqueiras. Senhores passageiros, cuidado ao descer”.
Sempre que a porta do metro abre me sinto num filme americano. As pessoas lendo tranquilamente seus livros, um casal se beijando logo no fim do vagão e um homem meio amargurado olhando pela janela. Descer é uma despedida dolorosa pra quem gostaria que a vida fosse tão interessante quanto um longa metragem.
Enquanto dou meu primeiro passo para fora um homem com um pouco mais de pressa me da um empurrão. “Desculpa”.  Tranquilo, sei que a vida exige alguns desesperos.
Enquanto caminho me lembro de uma reportagem que dizia que a mente começa a envelhecer aos 27 anos. Seria verdade? Existe data correta para começarmos a nos fadigar com tudo e com todos? Complicado esses estudos. Sapato bonito a da moça na minha frente, não aparenta alto valor, mas sem duvida seu estilo é interessante. Deve ter a muito tempo, ou as vezes foi só um presente mal dado que ela nem deve ter gostado muito mas na correria da manha não encontrou outro e caiu na casualidade de aceitar aquilo que livremente lhe foi imposto.
A Vida nos da alguns presentes dessa maneira. Nos oferece um sapato cafona porque sabe que querendo ou não uma hora vamos colocar no pé. Esse mundo gira, não se pode reclamar. São 27 solstícios de sapatos cafonas. “Bom dia”, comprimento o gari. O céu esta tão azul, não faz tanto frio para o primeiro dia do Inverno. Algumas poucas nuvens me lembram que já vi dragões e coelhos atacando formigas gigantes enquanto um soldado corria para subir em seu navio. Como as nuvens são criativas. Por trás do manto azul que encobre a terra imagino a galáxia escondida por trás desta cortina brilhante que ate hoje não entendi muito bem como funciona. Bilhões e bilhões de galáxias e estrelas me deixando com a tranquilidade de ser apenas pó estelar. Porque algumas pessoas simplesmente não entendem?
De todas as dificuldades ideológicas que encontrei ate hoje, a maior tem sido deixar claro que ser completamente infeliz é o primeiro passo para a paz e plenitude de um espírito. Claramente as discussões perderam um pouco do sentido. Afinal são varias pessoas fingindo que não estão defendendo seu ponto de vista e no final das contas, sou apenas assombrado pelos tristes mestres que tive, Poe, Augusto dos Anjos, Schopenhauer, aquele do nome estranho que ninguém consegue escrever e vários outros que trouxeram escuridão a minha luz. Tanto faz, não se há muito interesse nisso.
Que borboleta estranha. Acinzentada e escura. Os poemas sempre citam borboletas como majestosas, essa é uma encarnação da feiura dos insetos. Quanto tempo vive uma borboleta?
Um homem passa com seu cachorro do meu lado, minha vontade é abaixar e fazer um cafuné no pequeno animal que transita tão tranquilamente e perguntar o que o guia. O documentário que tinha visto ontem a noite tratava sobre as imigrações dos animais no Globo. Fascinante. Seres que aceitam seu instinto como guia.
Gravidade e magnetismo. Duas palavras que amaldiçoaram meus signos do zodíaco.
Enquanto caminho, já um pouco suado, penso que talvez não seja muito interessante defender alguns pontos de vista. Uma pessoa inteligente não pode continuar com mesmas ideias durante toda a vida. O bilhete no espelho lembrou-me bem do que me traz paz,  “seja feliz na sua infelicidade”. Sapato cafona esse que a vida me deu.
Como anda Silvina, meu primeiro amor? Afinal, ninguém esquece uma paixão da primeira serie. E os amigos que brincavam na rua, a mulher que conversava com minha mãe no portão, a professora bonita, a mancha na parede do quarto da casa branca com a arvore na frente, a lembrança do choro do meu pai sentado no cemitério, a primeira pipa que fiz, a morte do meu primeiro cachorro, a imagem de minha mãe triste porque não tinha biscoito no armário enquanto eu ainda olhava de um pouco abaixo da sua cintura, o sofá em que eu dormia, as surras, as brigas, as musicas, os eternos amigos que nem me lembro direito o nome, as felicidades e as tristezas, as goteiras que me acordavam a noite, tudo isso foi a espetacular e maravilhosa Vida me dando belos sapatos cafonas? A desgraça de uma merda de sapatos cafonas? Acredito que sim e a agradeço. Me servem muito bem para manhãs desesperadas e caminhadas apressadas.
“Bom dia”, comprimento o porteiro.
Não há do que se reclamar. A poesia esta no caos. “Bom dia”, elevador lotado hoje.
O silencio nos elevadores são engraçados, da vontade de dar um grito só pra ver as pessoas pulando levando a mão no peito e adjetivando minha mãe.
“bom dia”, não caiu dessa vez. Talvez na próxima.
Enfim, não há muito segredo nos 27. Não existe formula mágica em nenhuma idade na verdade. Cada um sabe o que faz bem da sua vida e para onde ela vai desandar. Para cada pessoa existe um significado, para cada mente e coração existe uma paixão e um amor. Odeio quando trancam a porta, quase sempre bato a testa nela, ouçam o eterno som da campainha agora. Não se pode esperar muito, nem desejar muito. Tudo é muito rápido e muito curto para preocupações desnecessárias. Apenas tente evitar qualquer...

“Surpreeeesa!!!”

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Carta de um fugitivo...


- Sentencio-o a Felicidade eterna – e bateu o martelo.
Assim foi minha condenação, anos de total e plena Felicidade. Apreendido e punido a sofrer pelas mãos da prisão chamada Liberdade. Fui levado ao pior lugar da qual um prisioneiro já ouviu falar, a Vida.
Meus dias eram incansáveis, horas e horas de total plenitude em tudo que se fazia. Era obrigado a ter um ótimo emprego, uma latente conquista em todas as áreas. Tinha fartura de alimentos, festas maravilhosas e tudo que se pode pensar de bom. Às vezes trocavam e me levavam para uma vida simples – a Felicidade esta nas pequenas coisas – diziam.
Vez em quando, as coisas já me abusavam, e torturavam-me para que pudesse procurar algo que despertasse novamente a tal Felicidade para que meus dias não fossem em vão. Esses sim eram as trevas do cárcere. Por dias já fiquei aprisionado solitário ate que encontrasse algo que me tornasse feliz novamente. Comprava algo melhor, trocava elogios, fazia novos amigos, outro emprego sempre cabia bem e ajudava com todo o resto. Não podia se falar nem ver coisas que atraiam a tristeza – não adianta se preocupar, você não pode fazer nada – e assim fazíamos, era uma tarefa árdua.
Por noites as lembranças das pessoas do lado de fora me viam a tona. Não eram obrigadas a nada, apenas viviam como deviam viver. Sem o fardo e julgamento da obrigação de serem plenas e estarem com seus espíritos animados constantemente. Viviam em paz sem a preocupação de serem necessariamente felizes, algumas ate a conquistavam, porem como sempre é de ser, ela partia novamente, mas sempre deixando seu antigo dono em Paz.
Os dias tem sido infinitos, as necessidades aqui impostas não me servem. Não possuo mais animo nem criatividade para saciar as vontades de meu carrasco. Sendo assim, deixo aqui minha despedida. Cavei meu túnel, escuro, sombrio e duro de se rastejar.

Aos que ficarem, aguardo-vos.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Bilhete...


Se veres esses versos
Sabes que não falo pra você
Mas aproveito seu fuxico
Pra confessar e aparecer

Nunca largue um Amor
Pois esse difícil é de se encontrar
Mas não se esqueça que Paixão
Essa esta em todo lugar

E não confunda meu amigo
Deixe de ser insaliente
Uma Paixão é um abrigo
Pra um Amor ficar contente

Julgue como quiser fazer
Como disse não escrevi para você ler
Pois de meu Amor eu cuido bem

E das Paixões que aparecer.

Importante...


“Se você não existisse, quem sentiria sua falta?”. O velho espantado olhava intrigado para sua neta.
“Você com certeza querida, ou não me ama mais?”, brincou.
“Não vovô, fora eu, papai, mamãe, e todo mundo lá de casa, o senhor faria falta pra alguém?”
As palavras eram suaves saindo da boca da criança, mas aos ouvidos pesavam naquele homem que já tanto tinha vivido. “Se eu não existisse, quem sentiria minha falta?” pensou, como dar falta de alguém que nunca esteve presente? A pergunta ficava cada vez mais indigesta. Sim é possível, sofreu. O tempo havia parado, o mundo parecia não girar mais. Aquela criança olhando para os pés, sentado ao seu lado encostando sua cabeça um pouco abaixo de seu peito havia feito uma pergunta simples porem de complexa resposta.
Ele fez um resumo rápido de sua vida, e não conseguia imaginar alguém que daria falta de sua presença. Quem choraria por um sorriso que nunca viu, um conselho que nunca pediu, um abraço que jamais sentiu? Ou aquela ideia genial que mudaria os rumos do mundo, da ciência, tecnologia, saúde, universo e tudo mais, a quem pertenceria?
Lembrou dos amigos, momentos, colegas e pessoas que se esbarrava na rua, quais delas precisariam da minha existência para continuar suas vidas? Ele sabia que não se tratava apenas de uma experiência simples daquelas que animam a gente, tratava-se de mudar completamente o universo de alguém.
Para quem sou importante? Quem me importou para dentro de si durante todos esses anos? Pensou rápido em alguns amores, paixões, mas nenhuma tinha sido grandiosamente surpreendente.
Como pude passar a vida inteira sem ter a plena certeza de que havia realmente transformado a vida de alguém ao ponto dessa pessoa não poder viver sem mim? As perguntas só aumentavam, ele já não sabia quem era a criança e quem era o idoso.
“Eu sei quem sentiria minha falta”, sussurrou a pequena.
O velho fez um movimento suave para olhar melhor para a origem de sua decepção, “Então diga meu doce”.
Buzina.
Sua mãe chegara, já era tarde. A criança pulou do sofá para pegar suas tralhas, beijou sem avô e foi em direção a porta.
“Ei, quem sentiria sua falta?” não perdoou o ignorante.

“Não posso dizer – falou em tom de meia revolta -. Se souber, não serei mais importante pra você vovô, não ira me esperar todos os dias sentindo falta de minha resposta e poderia viver sem minha existência tranquilamente.” Virou as costas e se foi.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Branco...


“Cego?!”. Não acreditei no que via. “O senhor pode acompanhar este homem ate a rodoviária?” perguntou o guarda que me encontrou depois de dar uma curta volta à procura de samaritanos para a boa ação. Evidente que não hesitei em ajudar, afinal, eu o conhecia.



 Infelizmente esse não é um texto que vou me preocupar em ser exato ou poético. Franco ou intimista. Não perca seu valioso tempo lendo as linhas abaixo caso tenha plumas para amaciar.
Nos passos que se seguiram ate o ponto final da nossa caminhada, conversamos e revelei o conhecer de nossa cidade. Falei que lembrava dele nas quadras das quais jogávamos e dos pontos conhecidos da cidade. Nunca em quase dez anos havia me direcionado a palavra a ele nas tardes de jogos. Estava lá, sempre presente, sabia seu nome e onde morava. Às vezes no mesmo time, e às vezes rivais. Mas colegas de quadra são colegas de quadra.
Uma cegueira progressiva o acompanhava já fazia um pouco mais de um ano, “vejo tudo branco meu amigo”, me disse meio triste algumas vezes. Não foram lasers nem cirurgias que conseguiram trazer de volta as imagens de mais de trinta anos de vida. Já havia se acostumado ate, percebi pelo gingado da bengala de ferro tateando o escuro à frente. Falou-me da vida, como estava a rotina e as novas tarefas que custavam ser executadas.
“Entregue, seu baú já ta encostando”. Ele me agradeceu, me abraçou e agradeceu novamente. Despedi-me olhando um pouco para trás, ainda percebendo os agradecimentos perdidos em um olhar de “tudo branco”.
No meu caminho de volta, não sabia mais quem era o cego. Quem via um futuro branco pela frente. Quem à de se levar culpa pelo roubo das cores que a luz nos entrega? Onde se deposita a certeza que no fim vai ficar tudo bem? Em qual esquina os homens assumem sua taxa de arrogância? Se um dia lhe faltar a sã consciência, o que será verdade?
Gostaria de falar sobre Felicidade, dor, vida, vontade. Falar sobre como o mundo é injusto ou como não valorizamos os dias que nos passa. Reclamar da falta de consideração pela natureza e todo o presente que ela nos da. Reclamar do mesquinho ou do hipócrita, do rico e do pobre. Do nobre ou do plebeu. Dizer um pouco sobre a falta de amor ou ate de dinheiro. Sobre política e religião. Sobre as divergências de opiniões não respeitadas ou sobre a fé cega em ideais. Gostaria de falar sobre o valor dos filhos e dos pais, dos amigos e ate dos animais. Mas, Saramago estava certo. Estamos todos cegos. Ou como Drummond já escreveu que cada um tem seu pedaço de verdade. Cada um tem sua bengala da qual fica a tatear o escuro na certeza de que será avisado por qualquer perigo futuro.
Mais de trinta anos de luz e tudo se foi em apenas trezentos e sessenta e cinco dias.

No fim da minha caminhada, sobrou apenas uma pergunta; Quando será minha vez?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Rotina...

Fim de tarde. Pra ela tudo era cansaço e fadiga. O sol já havia ido embora, aquele frescor de quase noite lhe fez perguntar porque ainda estava lá. “Não estudei, da nisso”.
O silencio da sala trazia certa paz e apreensão, “afinal estou só”, qualquer coisa hoje em dia era motivo de desespero. Os jornais noticiavam coisas horríveis de mulheres que em momentos de pouca atenção não terminaram onde gostariam. O olhar no relógio do pulso e  a pilha de trabalho ainda na mesa, a fez soltar um suspiro desanimador de trabalho mal feito. Colocou as mãos na nuca tentando relaxar, sem nenhum sucesso, ergueu seu rosto para o teto com um olhar triste e pesaroso, “como as novidades são difíceis de serem ouvidas hoje em dia”. Seu pensamento logo foi interrompido por uma batida na porta. Suas ideias de assassinato agora a pouco, pareciam mais reais. “Quem é”, perguntou meio desconfiada sem saber quem responderia do outro lado.
O medo logo dissipou dando espaço a outro sentimento não identificado no instante. Quem abria a porta sem cerimônias era nada mais nada menos que um velho amigo de anos. Ela sem timidez logo demonstrou seu entusiasmo com a visita tão bem vinda e ele como de costume, sem muito tato fez as velhas brincadeiras já entendida por eles.
Após os abraços e perguntas, “tudo bem, como vai, e o trabalho, etc”, as explicações da aparição e tudo mais eram discutidas com humor já a quase meia hora. Sem perceber se pegou olhando para boca dele, “já provei, excelente produto”, pensou com um sorriso malicioso interno tentando negar os outros pensamentos que vieram mais rápido do que pudesse evitar. Quando percebeu que o assunto já havia acabado e ele lhe olhava sem julgamentos sabendo que varias vezes já a viu com o corpo presente porem a mente distante, levantou rápido para tentar não mostrar sua leviana imaginação, “quer uma água?”, perguntou sendo logo interrompida com um “não obrigado, eu pego” que fizeram os dois se trombarem na ponta da mesa. Com medo de que a pudesse ter machucado, a segurou pelos braços com cuidado como um paramédico socorrendo sua vitima e o toque de seus dedos lhe arrepiaram a nuca. Ele parecia ter sentido o mesmo.
Se pudessem dividir em meses aqueles milésimos de segundos em que olhou para ele, um país teria sido invadido e devastado pela guerra. Percebeu que a sensação não era só dela. Com um olhar tendencioso, ele levemente percorreu seu decote como um lobo para com seu coelho e não conseguiu mais se prender.
“Delicia”, pensou rápido enquanto ele lhe dava um caloroso e pecaminoso beijo. Os raciocínios já não faziam mais sentido. Ele a empurrava pela parede, descendo com beijos suaves e violentos, apalpando-a, tateando minuciosamente seu corpo como em procura de um tesouro. “Não posso”, repetia em meios a gemidos ofegantes sem nenhum sucesso de ser ouvida e sem saber se realmente queria que a ouvisse. Uma presa sem possibilidade de sobreviver. A alça de sua blusa preta de cetim já estava caída. Já se sentia completamente molhada entre suas pernas. Ele abria seu sutiã enquanto a beijava delicadamente, vagarosamente. Uma pequena mordiscada. E os beijos continuavam. “Não..”, sua frase novamente interrompida enquanto ele se deliciava discorrendo seus lábios em seus seios como um sorvete, enquanto derrete, que se lambe todos o lados para aproveitar todo o sabor. A selvageria daquela delicadeza fez com que ela precisasse de mais oxigênio. Suas pernas já não existiam mais. Como se soubesse, ele empurrou as coisas de sua mesa e a deitou. Se por sorte dele ou azar dela, sua saia vermelha predileta fazia parte de seu vestuário hoje. Suas mãos bagunçavam os cabelos dele, num ritmo descompassado sem muita direção. Deitada ali, seus olhos abriam e fechavam, sentia seu seio sendo apertado pela mão dele enquanto a outra descia em direção a sua virilha em passos lentos. La em baixo ela já sentia ele tocar suas partes úmidas, dançando uma valsa molhada, fogosa e ardente.
“Para, não faz isso”. Ela sabia onde aquilo ia parar.
Ele lentamente levantou a cabeça, a olhou com um sorriso malicioso e desceu para sua fonte de desejo. Acabava ali, ela sabia o que estava por vir. Sentiu um pequeno arrepio percorrer sua espinha, “o que eu to fazendo, não pos...”.
O beijo de mel. Ela espremia um gemido saboroso, levantando suavemente sua lombar enquanto sentia seus beijos maliciosos entre as pernas. Ele a devorava. Já havia feito isso com outros homens, mas nunca sentido com tanta profundidade tal sensação. Era como se seu corpo estivesse dormente, um frio na barriga interminável, o coração acelerado, um calafrio maligno subia e descia sua espinha cada vez que sentia sua língua dançar. “Deve ter alguém ouvindo”, pensava, tentando abafar o máximo de seus lamentos, e evidentemente, sem sucesso. Era como estar no ninho de Afrodite provando todos os prazeres e paixões do olimpo. A pulsação mais firme fazia com que ela se movesse em um ritmo mais acelerado. Ele sabia como se ouvisse seus pensamentos que a dança estava terminando e seguia ela no mesmo compasso.  Não havia mais mundo, pensamento, matéria. Seus olhos fechados a levavam em um tubo brilhoso e sem fim. O ar ao redor não era mais suficiente, tudo estava se expandindo se resumindo em gemidos e prazer. Sua cintura valsava em um ritmo final. Um desespero tomou conta de todo seu ser. Ela apertava seus próprios seios violados tentando ainda se prender a algo real. Impossível. Um turbilhão de puro prazer explodiu. Algo parecido com um gemido longo saiu de seus labios, seu corpo se reteu por alguns segundos e... a dormência arrepiou cada pedaço do seu corpo.

Ainda deitada, passou suas mãos na testa tirando devagar o cabelo do rosto, com um sorriso tímido e ainda de olhos fechados disse para seu amante; você bagunçou minha mesa.

Ponto de vista

“...não, o que eu falei foi que eu aprendi a observar o tempo e o espaço - dizia entre mastigadas de um jantar noturno, enquanto eu fazia o ...