E é a primeira vez que eu vejo sentido no meu choro.
Cansei de passar vergonha com minha mãe rindo em velório.
No fim da igreja, enquanto um pouco mais de quatrocentas pessoas lotavam o templo, eu a observava naquele caixão e me perguntava em qual canto ela estaria
contando uma piada sem graça e rindo com alguns amigos. Eu ri.
Nos últimos dias, conheci pessoas que nunca vi na vida e
recebi conforto de várias outras que em tudo que falavam, diziam uma coisa em
comum; “Aquela tua mãe era doida”. Eu sempre pensava calado; “e tu nem conheceu
metade dela...”.
Minha mãe não valia absolutamente nada. Ela odiava todo
mundo que ficava “santificando” as pessoas que morriam. Obviamente, respeitando
a educação que ela me deu, digo que aquela mulher era sem noção. E é por isso
que ela era maravilhosa. Ela juntava latinha só para conseguir vender e comprar
um Baré pra gente. Minha mãe me bateu tanto, que eu acredito que as suas dores
de tendinite eram reflexo disso. Um dia falei isso pra ela e ouvi; “se eu
tivesse te batido o tanto que tu merecia, nem perna eu tinha mais”. E era assim
que ela amava os filhos.
Nunca cansava de dizer que era filha de cangaceiro, nascida
e criada na Bahia e sem muita paciência pra frescura. Repetia sempre que possível
seu apelido quando tinha que trabalhar numa carroça quando mais nova. A menina
da carroça. Bem conveniente. Passou fome, passou frio, passou raiva. Esse último
mais do que os outros. Sempre disse que escrevia e eu só acreditei no dia que
li um poema que ela mesmo tinha escrito pra sua mãe um pouco antes dela morrer.
Quando terminei de ler, ela levantou e foi aos prantos pro quarto. Hoje eu a
entendo bem. Pra você ser mãe, tem que decorar um dilema; “quando eu morrer você
vai sentir minha falta...”. Nenhuma mãe está apta a ser mãe sem dizer essas
palavras. Minha mãe repetia toda semana entre palavrões que ela proibia a gente
de falar e havaianas voadoras. Novamente ela estava certa. Depois dessa dor que
senti quando ouvi no celular que não a veria mais, nenhuma dor dói tanto assim.
Até isso mãe deixa arrumado pra gente. Nenhum problema agora é tão grande. Três
vezes chorei de desespero e tristeza na vida, nas duas primeiras minha mãe
estava do outro lado da linha. Na última a mensagem nem chegou.
Quando mais novo, algumas vezes eu ficava sozinho com ela em
casa. Ainda batia um pouco mais abaixo da sua cintura. Nesses dias a gente ia
comer numa lanchonete, dois x-saladas e um suco. Aquilo era o auge da minha existência.
Quando você chega em certa idade, parece que sua mãe não vai mais morrer. Você imagina
ela velha e doente numa cama, reclamando da vida e falando que você não sabe
criar seu filho direito. Eu já ouvi milhares de explicações e teorias sobre pra
onde ela pode ter ido. Isso não me importa mais. Minha mente esta onde ela passou.
Vocês conheceram a pastora, amiga, irmã, colega e várias outras Solanges. Mas só três conheceram a Mãe. Eu, por ter um leve
problema de personalidade inquieta, tive que ter uma atenção dobrada. Minha mãe
me ensinou a ler com uma faca e um cinto do lado. Não deu tempo de saber se ela
usaria a faca, eu aprendi a ler no mesmo dia. Sim, o cinto foi bem útil.
É verdade todas as coisas que falam quando a mãe morre.
Minha mãe escrevia poesia, dava sexta básica e sempre ajudou
todo mundo que bateu na sua porta. Antes do carro bater, me disseram que ela
tinha acabado de contar uma piada. Eu amava ela. Entre brigas e cobranças, ela
sempre deixou claro que estava sempre lá.
Se conheceu minha mãe, saiba que ela foi muito mais do que você
imaginava e muito pior do que você pensa. Sentirei essa dor eternamente e a
saudade vai ocupar esse buraco enorme na alma até onde eu puder levar, mas
jamais deixarei de rir das coisas absurdas que ela fazia.
No epitáfio deveria ter ficado “Escorpiana, evangélica, mãe
e sexualmente ativa” (isso ela gritava aos quatro cantos). Solange saiu de cena
com aplausos e rosas aos seus pés. Enterrou uma mãe e um irmão. Cumpriu seu
papel de ser humano e me ensinou a ser humano.
Vou chorar pra sempre e sua falta nunca será suprida, mas
sempre que em lagrimas eu lembrar da minha mãe, vou pensar; “Ela com certeza
estaria rindo”.
Mãe, trás a toalha. Minha alma esta imersa em lagrimas.
2 comentários:
Engraçado que fui repreendida por uma amiga, quando me perguntou onde eu iria no dia 24/07: “ vou ali contar piadas no velório de uma amiga” e minha resposta a reprimenda foi: “é ruim que vou deixar passar batido esse velório sem piadas e risadinhas que achávamos discretas, mas que nunca foram. Ela fazia isso em todo velório que estávamos”. sai chorando discretamente, diante da cara de chocada das pessoas que estavam por perto. Ela deixa um vazio grande no meu coração �� mas uma alegria enorme por ter conhecido uma parte dessa mulher notável.
Solange sendo Solange... como me faz falta...
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